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domingo, 22 de fevereiro de 2015

O BOM CASAL GAY

E numa tarde de domingo, vários pastores e líderes evangélicos e católicos, também apoiados pela ala “cristã” da Câmara e do Senado, encostaram Jesus na parede e lhe fizeram a pergunta crucial: Diga-nos logo quem são aqueles que fazem a Tua vontade e amam o próximo segundo a Tua verdade?
E Jesus então lhes contou uma história:
Um bebê foi abandonado por seus pais num valão que ficava entre duas igrejas: uma catedral católica, tradicional na cidade por sua beleza e imponência arquitetônica e um mega-templo evangélico, repleto de carros do ano à porta, cujo pastor ostentava seus muitos dotes financeiros em ternos de corte impecável e carros importados de causar inveja aos maiores empresários da cidade.
O pastor e sua esposa iam para o culto e ao pararem num sinal de trânsito perceberam o bebê jogado no valão, abriram o vidro blindado do seu carro e ouviram o choro da criança. Repreenderam o demônio que havia na “mãe tão desnaturada” que havia abandonado a criança ali, e já pensaram em organizar a Marcha Profética pelo fim do abandono de crianças. No entanto, devido às muitas viagens “em nome de Deus” e também do gasto que já tinham de condomínio e manutenção dos carros importados, não poderiam assumir o risco de levarem aquela criança pra casa, pois além dos gastos que lhe trariam, não sabiam sua procedência e se havia sobre ela qualquer espécie de maldição.
O sinal abriu, e partiram, orando por aquela situação.
Logo depois, no mesmo sinal passou um casal de católicos fervorosos. Há 20 anos lideravam movimentos de Encontros de Casais com Cristo, além do marido ser atuante nos Cursilhos de Cristandade. Viram aquela cena e choraram ao ouvirem o choro da criança abandonada. Falaram sobre as diversas Campanhas da Fraternidade, de como aquele quadro deveria ser mudado, perguntaram entre si pela turma da Teologia da Libertação, que não aparecia naquela hora e lamentaram não poder levar o bebê, devido ao fato de já terem gastos excessivos com seus cães labradores, ganhadores de concursos regionais. Mas saíram dali dispostos a participarem da próxima Marcha pela Família, organizados pelos setores de defesa da vida da sua igreja.
Já no fim da tarde, passava por ali dois rapazes, que comemoravam a recente decisão do STF em favor da união civil homoafetiva. Brindavam o fato de poderem legalizar a sua situação, já que há 8 anos viviam juntos. Mesmo em meio à música alta que tocava no carro, ouviram um choro ao longe, ao pararem no sinal vermelho. Abaixaram o som e viram a criança que soluçava e já quase não tinha forças, abandonada ali ao relento, desde a manhã...
Choraram muito. Pararam o carro, desceram e pegaram o pequenino no colo. Seus corações arderam de amor por aquela vida tão frágil e indefesa que decidiram leva-la para o apartamento em que moravam, que passava por uma reforma, e decidiram deixar para depois a conclusão da sala-de-estar e transformaram o espaço no quarto do bebê. Deram-lhe o nome de Daniel, que um dos dois lembrara significar “Deus é meu juiz”, e o bebê agora sorria, ao tomar seu primeiro banho, nos braços dos seus novos pais...
E Jesus, encarando os olhares furiosos daqueles que estavam ali lutando pela honra da família cristã, perguntou:
- Qual destes casais provocou um sorriso de aprovação na face amigável de Deus?

Texto de José Barbosa Junior
Publicado com autorização do autor.
Inspirado na parábola do bom samaritano e no texto “O Bom Travesti”, de Rubem Alves


sábado, 14 de junho de 2014

O PRIMEIRO LIVRO

Já parou para observar a expectativa de uma criança ao receber um presente, que tomada por euforia, não se contem em abri-lo com calma?....Assim é a relação desta garotinha com os livros.
 
Desde muito pequena em seu quarto, encontrava nos livros a possibilidade de ser alguém que nunca seria, de viver historias, que talvez, nunca viveria e acima de tudo, encontrar ali, realidade para seus sonhos.
 
E por isso, quando abria-os mergulhava em milhões de letras, eufórica a cada novo livro, encantava-se com a fascinante aventura de poder ser e estar onde quisesse.
 
Admirando sua vivencia no mundo das palavras, percebo que não há critérios para classificar os bons leitores: quantidade de livros lidos, autores famosos, clássicos mundiais, etc. Nada os determinará, senão a relevância do que foi lido.
 
E se ela não gostasse de ler Machado de Assis, ou Shakespeare, ou as dezenas de autores importantes para a literatura, quem poderia julgar que seus sorrisos espontâneos, os olhos brilhando ou ainda, quem julgaria que as lágrimas derrubadas enquanto passava os olhos ansiosamente por aquelas paginas, não foram tão sinceras, quanto de quem leu Romeu & Julieta?
 
Eu mais do que ninguém, posso dizer que senti muita sinceridade quando minhas paginas foram gotejadas por lagrimas quentes, e olha que nem sou tão famoso.
 
Aquela garotinha, quando pequena, tinha poderes e fazia dos livros companheiros, e não escolheu algum especifico, ela foi escolhida, presenteada e apresentada ao meu universo da fantasia, logo, apaixonou-se por tudo o que eu podia oferecer.
 
Ah! Se todos pudessem desfrutar  deste universo como ela, se de vez em quando, ao invés de entrar em uma loja de brinquedos, crianças fossem levadas a minha casa e de meus amigos, talvez a humanidade fosse mais gentil, mais compassiva, mais humana. Pois, para isso, basta serem cativadas por nós. Quem dera poder conquista-los com maior facilidade e quebrar todos os dogmas culturais contra a leitura.
 
Tentei manter-me próximo a ela durante todo o seu desenvolvimento, mas tenho que admitir que o tempo a fez afastar-se deste passatempo, mas mesmo assim, do auto da prateleira, onde ela me guarda carinhosamente, me emociono ao ver o brilho em seus olhos ao desfrutar de um novo amigo.
 
E minha felicidade é vê-la apaixonando-se novamente, não temo que meu lugar seja tomado, venham quantos couberem, pois, no fundo eu sei da sua eterna gratidão por tê-la feito ingressar num mundo de conhecimento e fantasias.
 
Com amor,
O primeiro livro.

Texto de Bruna Manzolli, #JBZL
 

terça-feira, 26 de novembro de 2013

O POEMA DO SEMELHANTE - Elisa Lucinda

O Deus da parecença que nos costura em igualdade
que nos papel-carboniza em sentimento
que nos pluraliza, que nos banaliza
por baixo e por dentro,
foi este Deus que deu destino aos meus versos,

Foi Ele quem arrancou deles a roupa de indivíduo
e deu-lhes outra de individuo ainda maior, embora mais justa.

Me assusta e acalma ser portadora de várias almas
de um só som comum eco, ser reverberante
espelho, semelhante, ser a boca
ser a dona da palavra sem dono de tanto dono que tem.

Esse Deus sabe que alguém é apenas o singular da palavra multidão
É mundão, todo mundo beija, todo mundo almeja, todo mundo deseja, todo mundo chora
alguns por dentro, alguns por fora, alguém sempre chega, alguém sempre demora.

O Deus que cuida do não-desperdício dos poetas
deu-me essa festa de similitude
bateu-me no peito do meu amigo

encostou-me a ele em atitude de verso beijo e umbigos,
extirpou de mim o exclusivo:
a solidão da bravura, a solidão do medo, a solidão da usura
a solidão da coragem, a solidão da bobagem, a solidão da virtude
a solidão da viagem, a solidão do erro, a solidão do sexo
a solidão do zelo, a solidão do nexo.

O Deus soprador de carmas deu de eu ser parecida
Aparecida, santa, puta, criança
deu de me fazer diferente
pra que eu provasse da alegria de ser igual a toda gente

Esse Deus deu coletivo ao meu particular
sem eu nem reclamar
Foi Ele, o Deus da par-essência
O Deus da essência par.

Não fosse a inteligência da semelhança
seria só o meu amor
seria só a minha dor
bobinha e sem bonança
seria sozinha minha esperança.
 

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

OSTRA FELIZ NÃO FAZ PÉROLA

"Ganhei este livro de amigo secreto, foi minha ultima leitura em 2012. Fechei com chave de ouro, trata-se de uma obra prima. Abaixo a resenha que mais se aproxima do que senti com este livro".

O resgate de tudo o que é singelo. A luta pela felicidade em vida. A revolta por tudo aquilo que, embora lógico, não faz sentido (e, ainda assim, é aceito!). A palavra que é sentida pelo coração. Uma árvore, uma horta, uma amizade, a arte, Deus, Inferno, milagres, morte – todos eles ganham uma nova (ou seria mais honesta?!) dimensão em Ostra feliz não faz pérola, de Rubem Alves. 

Dividido em onze capítulos temáticos (Caleidoscópio, Amor, Beleza, Crianças, Educação, Natureza, Política, Saúde Mental, Religião, Velhice e Morte), o livro é uma coleção de recortes que abordam o viver por diversos prismas.

Cada uma das partes, por sua vez, é composta por pequenos textos – fragmentos do próprio Alves, trechos e citações que o inspiraram, seja na literatura, na música ou de pessoas do cotidiano do autor.

A reflexão que nomeia a obra já nos dá um aperitivo da poesia disfarçada de prosa que compõem todo o livro e que nos delicia a cada página. A escrita, de forma delicada e sincera, é uma verdadeira conversa com todos os leitores. Prosa mineira, taciturna, que sempre percebe o que há de bom, de melhor, de lindo, sem abandonar as suas convicções. 

E por falar em convicções, a leitura de Ostra feliz não faz pérola deve ser feita com o coração aberto. Aberto aos novos e distintos pontos de vista. As visões do Rubem Alves psicanalista, filósofo e teólogo se fundem, gerando conceitos educacionais e religiosos que se diferem daquilo que a maior parte das pessoas está acostumada. Se assim você o fizer, conseguirá pensar em como você mesmo vê o mundo e quais são suas opiniões sobre ele. 

Posso afirmar que o livro é um primor que nos conduz a uma celebração da vida. Sem dúvida, uma obra digna de ser lida, relida, dessas que deixamos em nossa cabeceira, sempre à mão!

Livro: Ostra feliz não faz pérola
Autor: Rubem Alves
Páginas: 280
Editora: Planeta
Sinopse: O autor define seu livro: “Pessoas felizes não sentem necessidade de criar. O ato criador, seja na ciência ou arte, surge sempre de uma dor. Não é preciso que seja uma dor doída. Por vezes, a dor aparece como aquela coceira que tem o nome de curiosidade. Este livro está cheio de areias pontudas que me machucaram. Para me livrar da dor, escrevi”.

Resenha de Fernanda Rodrigues, bacharela em Letras (Português e Inglês) e estudante do curso de Formação de Professores na USJT. Além de ser professora de Língua Inglesa, é louca por assuntos que envolvam a Literatura, as demais artes e o processo de ensino e aprendizagem. Escreve no Algumas Observações, no Escritos Humanos, no Teoria, Prática e Aprendizado e no Barbie Nerd.

Você encontra este texto no: Nosso Clube do Livro - http://nossocdl.blogspot.com/ 

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

O MILAGRE DAS AURORAS

Era uma vez um Céu escuro,sem nuvens,sem estrelas,sem lua,muito menos sol. Tudo era apenas coberto pelo mais profundo azul escuro. Às vezes, neste Céu, corriam alguns cometas, que cruzavam imponentes todo aquele grande espaço negro. Faziam barulho, brilhavam forte, promovendo grandes explosões.

Enquato o Céu a pensava consigo mesmo:
_Será algum destes belos cometas, aquele que me tornará mais colorido? Será algum deles, aquele que me fará companhia durante a ausência de meus dias, e noites?

Mas, os cometas corriam depressa, percorrendo todo aquele grande pálio escuro e vazio, causando grande impacto, realmente chamando atenção, mas nunca ficavam, nunca esperavam, sempre buscando alimentar sua sede de mostrar seu brilho em todos os cantos do céu e da terra, vivendo para enriquecer seus egos, suas vaidades, precisavam apenas do fundo negro daquele firmamento escuro para realçar seu próprio brilho.

O Céu, por sua vez, vendo que era considerado apenas um cenário para tal espetáculo, escureceu mais ainda, tornando-se recluso, fazendo chover seu lamento sobre toda a terra.

E ao chegar o inverno, mais uma vez o triste Céu iniciou seu trabalho:
Fez chover...Fez nevar...Fez escurecer...Nenhum cometa atravessou o Céu naquele dia de inverno.

Mas, o Pai Universo, aquele que reinava sobre o Céu, a Terra e todos os astros, havia reservado algo para aquele céu tão triste.

Enquanto seu lamento caia sobre o solo, quando aquele solitário firmamento começou a se acostumar junto a sua aparente interminável solidão, algo aconteceu.

Uma pequena luz brotou em seu corpo. O Céu achou que era apenas mais algum cometa vaidoso, desejando realçar seu brilho. Mas, aquela luz, era diferente, era calma, não se assemelhava ao clarão causado pelas labaredas dos astros corredores. Era tranqüila. Transmitia paz.

E o Céu, admirado junto a aquela luz que aos poucos, tomava espaço em seu corpo, se perguntava em secreto o que seria aquele fenômeno que lhe transmitia tanta esperança.

Luzes de diversas formas tomaram todo espaço, dançavam calmamente, sem a pressa e a vaidade dos cometas, criando diversas cores, diversos tons, produzindo um belo espetáculo, acalmando a infelicidade daquele ser outrora solitário.

Pela primeira vez, o triste Céu sorriu.

E em seu sorriso, diversas estrelas surgiram, formando uma enorme constelação, que também passou a fazer parte daquela inesperada festa.

O Céu estava feliz, plenamente feliz, pois agora, havia passado a amar aquelas luzes dançantes e coloridas, e delas, havia recebido importância que o mesmo nunca havia experimentado.

E as "Luzes do Inverno" foram chamadas de "Auroras", que tinha por significado: "O Romper de um novo Dia".

E assim...o Céu passou a amanhecer e também a anoitecer.

Mas as Auroras, elas sim, o fizeram VIVER.

E toda noite, o firmamento cedia espaço para aquela grande festa, onde a lua, o sol, as estrelas, e as Auroras brincavam e dançavam , iluminando toda a terra.

E aquele humano, aquele que observou em secreto toda a solidão do firmamento durante tanto tempo, durante tantas gerações, aquele que o Céu, durante anos, sem saber, envolveu em suas trevas

Deixou amanhecer sua alma

Encontrou seu caminho para casa...

Por Henrique Ladin no Blog O FAROL

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

EU AMO ASSIM.


Eu te digo "te amo", tudo passa a ser simples e todas as outras coisas se tornam obrigatóriamente possiveis.


O amor de verdade não precisa absolutamente de nada por perto. Sua existencia não depende presenças ou logicas ou motivos recentes. Sua vontade não obedece a ciclos, leis, decretos de reis e consequencias _ se ama sozinho, triste, afagando um travesseiro e ainda assim tendo no peito o maior amor do mundo e pronto.

Às vezes simplesmente se ama abraçando o próprio corpo como se ele fosse um pouco daquele corpo alheio que um dia se fez presente. Às vezes se ama espirrando pequenos jatos de perfume para cime e sentindo aquele aroma tão familiar pousando mansamente de volta às narinas lhe remetendo a um tempo antigo e único.

Às vezes se ama parado olhando rumo ao vazio, é quando cai uma lágrima e não se sente, "morre-se de amor e continua vivo"_ diria Mario Quintana. Às vezes se ama sonhando, seja acordado ou dormindo, alcançando outras dimensões, motivos, praças e pizzas um dia conhecidas.

Se o que quer ouvir é isso, então te digo: 'Te amo!"
E eu sorrio de mim mesmo, pois quem ama é o bobo mais feliz do mundo...e eu sempre soube disso.


Texto do meu amigo Will Lukazi, visite AQUI