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sábado, 14 de outubro de 2017

QUANDO

Quando eles acabarem como Estado laico chegará a hora de decidirem qual das vertentes cristãs terá primazia, uma vez que também consideram o ecumenismo algo abominável, determinar quem tem o poder será a nova pauta das bancadas religiosas, e então, não se lembrarão que unidos, destruíram o que de mais precioso temos, a liberdade religiosa. 

A tônica dos debates será o estelionato aberto em rádio e TV promovido pelos tele-evangelistas, os mega-templos e mega-arrecadações que são livres de qualquer imposto, possibilitando a lavagem de dinheiro, não só da corrupção politica, mas também do trafico. Bem como os padres pedófilos acobertados pelo  Vaticano e outros problemas históricos da Santa Sé.

Quando o cristianismo for a religião oficial do país e tiverem que decidir sobre temas nacionais de grande importância e suas divergências teológicas vieram a tona, veremos a face maligna e diabólica de quem se uniu tendo como deus o próprio o ventre.

Católicos e protestantes dificilmente chegarão a um acordo sobre qual dos lideres - padres ou tele-evangelistas - terá a ultima palavra sobre assuntos de cunho nacional. As aulas de religião nas escolas será um grande impasse, bem como, manter ou não imagens de cunho religioso ou cultos em repartição pública. Veremos mais uma vez a torre de babel se formando, onde a união por chegar ao céu era o bem comum.

Não haverá consenso sobre quais feriados deverão ser mantidos ou descartados. Os motivos de discórdia irão aumentar dia a dia e chegará a um ponto da comédia, substituirão a discussão sobre biscoito ou bolacha por questões irrelevantes como missa ou culto ou oração e reza, sem falar na discórdia sobre o uso ou não do preservativo. 

A arte sacra sempre foi e será algo que os protestantes evangélicos não conseguirão engolir - "não fará para ti imagem ou escultura, nem alguma semelhança do que há acima do céu, nem debaixo  da terra, nem nas águas debaixo da terra" (Ex. 20:4) - bradarão seus deputados e senadores no congresso e diante de museus e galerias de arte. Cheios de pudores, o nu mesmo que artístico deve ser censurado. A imagem de Jesus crucificado ou dos santos que para Católicos é uns sinal de reverência e lembrança de fé e santidade, para algumas alas evangélicas, ainda é sinal de idolatria e culto a demônios. 

Nesta briga de egos e deuses, o que será dos vitrais magníficos, do terço, do crucifixo, das telas representando o Cristo, a virgem, a imagem dos santos? O que será das grandes catedrais góticas e dos museus que abrigam grande parte destas obras?

Quando eles finalizarem o genocídio da população negra, periférica das favelas e dos morrosonde além de tiros se ouvem orações, quando a supremacia branca vigorar. Não haverá mais a quem perseguir. Não terão mais bodes expiatórios.

O artigo sexto da Constituição terá todo o sentido - "todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza" - pois o que distinguia uma pessoa de outra - sua raça - deixará de existir, ao menos na superfície, onde os olhos podem ver e o coração julgar.

A primeira medida e a mais eficaz será a desmilitarização da policia.

Não será necessário leis para punir os transgressores, seus jovens de pele clara não são delinquentes ou marginais, seus criminosos de colarinho e pele branca sofrem apenas de distúrbios psicológicos. Fóruns e delegacias serão transformados em centros mais parecidos com colonia de ferias para crianças mimadas que um local ressocialização e tratamento. Terrenos baldios e inutilizados onde se desovam corpos de negros como em senzalas, abrigarão bairros com casas luxuosas, e assim, continuarão Os pisoteando mesmo depois de mortos.

A maconha será legalizada - não será mais uma reivindicação de negro, podre, favelado ou esquerdista humanista maconheiro e sim de jovens classe média que querem se divertir - conseguirão assim, a liberação do êxtase, da heroína e da cocaína. Saberemos então, quem são os verdadeiros narcotraficantes que serão transformados do dia para a noite em grandes empresários do setor. As baladas mais caras dos grandes centros serão abastecidas em pleno dia, helicópteros com mais de 500 quilos descerão a cada hora, sem que ninguém se preocupe com a procedência da droga ou quem e o dono do helicóptero.

O Brasil sairá do ranking de país onde mais se mata a população jovem e de mulheres negras. Não será necessário dividir espaço com esta gente diferenciada nas ruas, praias ou nos aeroportos. Uma nova imagem do país atrairá novos e melhores investidores e turistas. 

Quando eles apagarem da nossa memória o negro e do índio - sua resistência, na cultura e na arte. Não haverá referencia padrão para o que é feio, tudo será lindo.

Todo comercial terá família com cor de margarina. Nas rádios de todo o país não se ouvirá mais o batuque do samba, do baião, frevo, maracatu. Nem sei se ainda haverá alguma musica que seja realmente popular e brasileira. Substituirão o carnaval por algo que nem consigo imaginar. Mudarão os dicionários excluindo palavras de origem afro ou indígena, será proibida a comercialização de qualquer item que lembre, mesmo que de longe este passado terrível em que mergulharam o Brasil, será o fim da nossa culinária, moda e literatura, será o fim da cultura brasileira.

Havera a tão sonhada reforma agrária, mas para dividir as terras indigenas entre os grandes latifundiários.

Não haverá mais racismo ou guerra de classes. Não serão necessários sistemas de cotas para pagar a divida histórica de exploração e marginalização. As novas castas sociais terão uma nova classificação baseadas em privilégios brancos acessíveis e não acessíveis. Haverá escolas para todos, casas para todos, um lugar ao sol para todos. Mas para que haja justiça, prevalecerá a meritocracia e exceto se não trabalhar o bastante para ser melhor que seus irmãos, ficara de fora - mas a culpa será toda sua, justo! E brigarão entre si por causa da cor dos olhos.

Quando eles extinguirem a diversidade, quando os frouxos voltarem para o armário, as mulheres aos seus postos junto ao fogão e  tanque e aos homens retornar a dignidade de provedores exclusivos do lar, todas as famílias serão bem-aventuradas. 

Não haverá causa que justifique a violência contra a mulher. Os homens não sofrerão de machismo, não haverá quem os ameace ou ofenda em sua masculinidade. Cairá o numero de divórcios, de pedofilia, de crianças abandonadas, maltratadas, violadas em sua sexualidade e até o número de abortos reduzirá. A natureza também dará uma trégua e não se ouvirá mais sobre terremotos, furacões ou tsunamis causados pela irá de Deus contra os gays. 

A economia do pais embora reduza drasticamente e  haja a extinção de atividades econômicas  causada pela evasão das mulheres dos postos de trabalho, isto garantirá o emprego a todos os homens. Entretanto, a dificuldade na retomada da economia e não tendo quem acusar, culparão a crise global e a ascensão da economia chinesa. Numa tacada de mestre, obrigarão que as famílias priorizem filhos homens e queimando o estatuto das crianças e adolescentes, sera permitido o trabalho infantil para meninos a partir de 10 anos.

Quando tudo isso tiver sido feito, os livros de história contarão como os cidadãos de bem combateram e venceram seus inimigos por amor a pátria, a família e a deus. Uma versão utópica de paz e prosperidade como os contados nos livros das escolas da Coreia do Norte ou como os discursos de Hitler. E serão facilmente convencidos de que o céu desceu a terra.

E os justos - estes que foram marginalizados, oprimidos, perseguidos e injustiçados - "brilharão como sol no Reino de seu Pai, aquele que tem ouvidos ouça" (Mateus 13:43). 


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

AMIGOS INDICARAM, EU LI

Neste ultimo mês eu li como se não houvesse amanhã.
Foram leituras diversas e muito especiais. Li livros recomendado por amigos e, constato sem medo de errar que, não há nada melhor que um amigo que te recomenda livros.


As mentiras que nos contaram sobre Deus.
William P. Young
Editora Sextante
Recomendação: Marcio Cardoso

Não tenho o que comentar, chorei diversas vezes. É um livro libertador. Daqueles que você não precisa concordar com tudo, mas que respira aliviado quando fecha.



Preciso saber se estou indo bem
Richard L. Williams
Editora Sextante
Recomendação: Atividade do trabalho

Fiquei surpreendido com ao abordagem do autor. Um livro sobre feedback e sua aplicabilidade na vida e em todas as nossas relações.
Vale a pena a leitura.




O que é fascismo? E outros ensaios.
George Orwell
Editora Companhia das Letras
Recomendação e presente: Will Carvalho

Embora pequeno, apenas 159 páginas sua leitura é complexa a densa. O autor analisa livros e autores de sua época e por tratar-se de resenhas e artigos, não dá o contexto das criticas, então para ler e entender por completo, precisa conhecer um pouco a época em que foi escrito.



Perguntaram me se acredito em Deus
Rubem Alves
Editora Planeta
Recomendação: Bruna Gabrielle

Ele dispensa apresentações, gosto da foram com que escreve. O olhar da vida como o de criança deslumbrado com o que observa a primeira vez.
Uma leitura simples mas cheia de significados.




E além destes, iniciei uma maratona que vai durar um tempo para finalizar, pois estou intercalando com outras leituras. Embora a leitura de romances me seja enfadonha e difícil, estou gostando, como disse na postagem anterior, este ano estou me desafiando. Então estou lendo a saga de Harry Potter. Sou apaixonado pelos filmes. E como me disse uma amiga, um PotterHead de verdade é o que leu todos os livros, então vamos lá, para mais este desafio.










sábado, 5 de agosto de 2017

SAPIENS: HOMO DEUS

Tenho lido no decorrer dos últimos anos muitos livros instigantes. No que se refere a minha fé, leio muita coisa que a contradiz ou que a põe em xeque, é a forma que tenho de trabalhar minha mente e coração e fortalecer minhas convicções e valores. Ciente dos riscos, mas ainda assim, é a forma que encontrei de não cair no erro de me fechar em uma bolha de paradigmas e preconceitos e, não conseguir entender ou ouvir as vozes dissonantes ao meu redor.

Dica de uma amiga de trabalho, Sapiens e Homo Deus entraram na lista dos livros mais impressionantes que li. E mais do que tentar descrever a excitação que sentia durante a leitura e todos os questionamentos e curiosidades que aguçam minha mente e coração, vou deixar o próprio autor te provocar.

Assista a entrevista que ele deu ao Programa do Bial.





Sapiens: Uma breve história da humanidade                                  
Editora L&PM Editores
464 páginas













Homo Deus - Uma breve história do amanhã
Editora Companhia das Letras
443 páginas


domingo, 9 de julho de 2017

O PERVERTIDO SOU EU

Para quem é um leitor assíduo dos textos bíblicos, tem senso crítico e é experimentado na realidade da condição humana, não precisará forçar demais a memória para se lembrar de algumas situações relatadas nas escrituras e, perceber que os autores bíblicos não tiveram nenhum tipo de pudor em seus relatos. Podemos, assim entender, que não é necessário olhar pelo buraco da fechadura para conhecer com os santos homens de Deus agiam em sua intimidade sexual, pois até mesmo suas depravações estão exposta da forma mais escancarada possível.

Desta forma, a acusação que recai sobre o público homoafetivo de depravação sexual, moral e de seu instinto impetuoso para a destruição da família tradicional, quando confrontada com estes relatos perde completamente a força e o sentido de ser. E entender estes relatos como parte da experiência humana - com seus erros e acertos - lança luz à questão, pois ambos, héteros e homossexuais estão sujeitos a falibilidade humana e, a consciência disso, especialmente para quem tem dificuldade em acreditar que homossexuais nascem assim, pode ajudar na formatação de uma teologia menos inescrupulosa ao público homoafetivo.

De Abraão à mulher pega em adultério, o que as escrituras querem nos mostrar é que, na experiência humana não há ninguém que esteja no patamar de anjos, assexuados e imune à libido e desejos, embora utilizem-se da história de José (Gn 39) que fugiu antes que cedesse as investidas da esposa de Potifar, para exaltar um padrão de castidade que destoa - embora tenha seu valor - de todas as outras histórias bíblicas.

O que lemos nas escrituras  - com todo o respeito - e longe de uma comparação leviana, são relatos sexuais que, se tirados do contexto, poderiam estar na internet em blogs ou páginas de contos sexuais, em uma lista singela temos relatados de bigamia, poligamia, incestos, estupro, adultério e não poucos casos de sedução sexual por motivos distantes do amor romântico dos livros de Nicholas  Sparks. O que é digno de ressaltar é que alguns destes relatos envolvem crimes cruéis como no caso de Davi, que para acobertar seu adultério, arquiteta um plano maquiavélico, para assassinar Urias, o marido de Bateseba e como o de Abraão que manda embora, no meio do nada, sua concubina e o filho, fruto do adultério do patriarca.

E é de se admirar que alguns pastores e deputados da bancada evangélica ao destacar a luta - legítima - pelo direito civil homoafetivo como uma guerra para a destruição da familia, se esquecem destas importantes e simples constatações.

Me questiono se sua tendência a ignorar tudo isto, é o fato deles terem sido feitos em prol da família tradicional?

Anda hoje apenas os homossexuais são rotulados de promíscuos, pervertidos, vinculados à pedofilia, considerados grupo de risco para doação de sangue e transmissões de doenças sexuais e imoralidades em geral. Se esquecem que as maiores vitimas do vírus HIV são mulheres heterossexuais que receberam o vírus de seus maridos; outro dado importante é que em estudo realizado por uma Universidade dos Estados Unidos que analisou 269 casos de abuso infantil constatou que, em 82%  dos casos, a iniciativa partiu de adultos heterossexuais. Porém,  isso parece não ter grande importância, bem como os textos bíblicos, quando o tema é impedir que homossexuais tenham seus direitos estabelecidos, mesmo que sob pretextos duvidosos.

Quem acusa e difama as uniões homoafetivas como promíscuas e uma afronta a sacralidade da família, utilizam-se de tão poucos textos bíblicos mas conseguem fazer um estardalhaço tão grande, e o que não percebem é que, em toda a escritura não há relato algum de algum homossexual se infiltrando no seio da família de um dos heróis da fé, seduzindo-o com o objetivo de causar sua destruição. O que vemos na realidade são homens e mulheres - sujeitos às mesmas paixões que nós - dando lugar a suas cobiças, luxúrias e promiscuidades e vivenciando ou não as consequências de seus atos.

E depois, o pervertido sou eu, que casei com meu primeiro namorado e fui ter minha primeira relação sexual após os 30 anos.



sábado, 17 de junho de 2017

AMOR, HISTÓRIA E TEOLOGIA GAY

Os últimos meses foram de leituras intensas, de quebra de paradigmas e de aprofundamento de valores que em meu coração, só crescem a medida que vivendo percebo quão verdadeiros e significativos são: humanidade, respeito, justiça, solidariedade, compaixão, entre outros; Não apenas visto de um prima filosófico ou intelectual, mas espiritual e acima de tudo relacional.

Se faz urgente o retorno a estes valores, que devido a pregação contínua da individualidade e com o apoio inclusive daqueles que se dizem cristãos, estão sendo deixados de lado, até que caiam no esquecimento e o homem se transforme em uma máquina sem emoções ou sentimentos, escravizados por si mesmos e por desejos egoístas, em detrimento do outro e não somente do outro humano, mas do outro - o planeta - e tudo o que tem vida e nos cerca.


Uma brecha no armário - Proposta para uma teóloga gay
Fonte Editorial
André S. Musskopf

"Se para homens heterossexuais a masculinidade é uma carga com a qual precisam aprender a lidar, e uma grande pressão atingir o ideal de provedores que a sociedade lhe exige. para os homens gays esta situação é duplamente rigorosa. Numa sociedade em que o sucesso é a medida pela qual se aceita ou rejeita as pessoas, os homens gays têm que ser ainda melhores do que os homens reais".


Martinho Lutero - Um destino
Três Estrelas
Lucien Febvre

"O historiador Lucien Febvre reconstitui passo a passo a trajetória do fervoroso monge agostiniano que, no encalço da verdadeira fé cristã, se insurge contra a igreja católica, é excomungado e se vê, então, no epicentro de sucessivas revoluções - religiosas, sociais e politicas - e muitas vezes manipulado por estes acontecimentos que muitas vezes se entrelaçam a sua historia e com o destino de uma época inteira; o século XVI alemão e europeu. Por detrás dos conflitos religiosos que levaram à maior crise do catolicismo em todos os temos e à criação do luteranismo, delineia-se a idade moderna. Um livro com uma abordagem inovadora da narrativa biográfica, a densidade de suas reflexões e a vibrante escrita de Lucien.


O amor é contagioso - O evangelho da justiça
Fontanar
Papa Francisco

Em um mundo repleto de pobreza, violência, perseguição e indiferença, o Papa Francisco quer nos ensinar a amar. Segundo ele, se o mal é impositivo, o bem é contagioso. E, diante da adversidade, o amor - sinônimo de justiça - é a única força capaz de nos unir. E neste livro nos incentiva a trabalhar por um mundo mais solidário, exercendo a empatia, porque ninguém pode permanecer insensível às desigualdades que ainda existem no mundo. Através da solidariedade, do acolhimento, da igualdade, da fé e da misericórdia,  o amor é contagioso pretende nos guiar numa jornada pela superação das injustiças no mundo. Doar-se ao próximo: este é o amor divino.

Recomendo as leituras.


domingo, 11 de junho de 2017

A PRAÇA DOS ESCRAVOS

Era por volta das quatro da manhã, a galera após se acabar nos bagulho acenderam umas fogueiras para se aquecer. Quando o efeito da pedra passa, é o que nos resta, frio e fome. 

E nesta madrugada, especialmente fria, muitos possivelmente não acordariam, Seriam assaltados na calada da noite, por um ou pelo outro. Todos os dias eram assim na Praça da libertadora dos escravos. 

Os seus pretos, agora libertos, continuavam a ter um fim trágico: overdose, fome ou frio, nada diferente da senzala. 

Peguei minhas coisas e entrei na barraca armada com pedaços de madeira e papelão. Tentando me esconder do frio e pregar os olhos. O cheio de maconha entrava pelas frestas e com ela um vento gelado, e por mais que tentasse um mísero cochilo, o estômago impedia, doendo, roncava alto. 

Dia estranho, me incomodar assim com a fome, estava sem um puto para mais um barato antes de dormir, ao menos durante a nóia a fome desaparece. E depois, você dorme, não porque tem sono, mas para permanecer no sonho, longe do pesadelo da realidade. 

E entre um cochilo ou outro, se desperta no susto por uma briga, alguém mijando na sua cara ou por alguém tentando roubar o pouco que você tem para mais uma pedra. Não dá nem para julgar. 

Mas, neste noite as coisas estavam estranhas, acho que o frio fez a galera desanimar e querer apenas se aquentar. Um dia frio, drogas, bebidas e uma fogueira, era tudo. 

Mas eles chegaram de repente, eu estava quase pegando no sono, ouvi algumas sirenes  e a agitação. Som de passos rápidos, os cachorros latindo nervosos, olhei pela fresta e vi soldados, armas em punhos, passos fortes no chão, batiam violentamente em que ousava atravessar seu caminho. 

Gritaria, correria, pensei: Hoje é dia?! 
Porque não estão em suas casas aquecidas, em suas camas forradas com almofadas e edredons, dormindo o sono dos justos. 

Impiedosamente invadiam meu lar, para tirar meu sossego. 

Comecei a apanhar minhas coisas, tudo o que tinha cabia em uma sacola de mercado. Os passos apertavam, estavam mais perto, barracas eram derrubadas ao som de gritos: "vai vagabundo, levanta dai" ... "Não adianta correr" ... "se correr vai morrer". .."drogado, filho da puta".

Eles invadiram como uma enxurrada, varrendo tudo, levando o que viam pela frente. 

Apavorado, levantei, peguei minha troxa e tentei correr. Senti uma paulada nas pernas, cai, levei comigo uma barraca que caiu próximo a uma fogueira, levantando faíscas e espalhando brasas. Em pouco tempo, enquanto eu ainda me arrastava no chão, o fogo se espalhou. 

Fui puxado pelos cabelos, arrastado por alguns metros, até que me ergueram. 
Puta que pariu a praça estava em chamas. Sons de sirenes, barulho de helicóptero, soldados por todos os lados, gente sendo algemada, ouras apanhando por resistir.

E a praça em chamas, o fogo da justiça de um lado e da injustiça do outro.
Que a ambos consome de ódio.

A praça estava em chamas,  e a culpa era minha. 

Morador de rua, vagabundo, safado, drogado, preto e pobre.
Sem lar, sem nada.
E agora, sem praça. 

domingo, 9 de abril de 2017

REFUGIADOS

Em tempos como este, em que vivenciamos um grande número de pessoas deixando sua terra natal em busca de uma nova vida e, nações que, ao invés de estarem com braços abertos, fecham suas fronteiras, agravando ainda mais a situação, em que lado ficar?

Acabei a leitura de dois livros voltados para este tema - refugiados - um best seller ficcional sobre um rapaz africano chamado Samba que após a morte do pai, desejando dar uma vida melhor à família, migra para a França de forma clandestina; e a biografia de Yeonmi Park, uma criança que com sua mãe saem da Coréia do Norte em busca de sua irmã desaparecida e, que enganadas, são vitimas do trafico de mulheres para China, e buscam refugio na Coréia do Norte.

O que ambos tem em comum, a luta por uma vida mais digna, longe de ameaças de morte e da fome, induzidos pela promessa de fatura, riqueza e liberdade e, não apenas isso, a decepção por sentir-se enganados e as dificuldades em adaptar-se a uma nova língua, cultura e o preconceito - xenofobia - dos cidadãos nativos em relação a refugiados estrangeiros.

Marginalizados em guetos nas periferias da cidade, dificuldades para conseguir o documento de cidadania, somados a dificuldade de conseguir um emprego e o medo de serem apanhados pela policia e repatriados, levam os refugiados a teremos comportamentos que, em um extinto puro de sobrevivência, pode beirar a criminalidade, quando não chegar as vias de fato. Como escreveu Yeonmi: "Quando esta faminto e desesperado, você assume qualquer risco para poder viver", situação que fica explicita em Samba, ao se ver obrigado a pegar comidas perto do prazo de vencimento para vender em uma feira ou utilizar o documento de seu tio para conseguir um emprego; uma vez que Yeonmi e sua mãe não tinham outra opção já que sua situação era de escrava.

Recomendo a leitura, que além de atual, por si só, levantam uma série de questões que aos nativos passam desapercebidas e que são, em muitas vezes a causa do aumento da criminalidade e do aumento de moradores de rua em suas cidades, e em casos extremos, a causa de ataques terroristas.

Recomendo!!




Samba
Delphine Coulin
Companhia das Letras



Para poder viver
A jornada de uma garota norte-coreana para a liberdade.
Yeonmi Park
Companhia das Letras




** Aproveito para agradecer a Companhia das Letras pelo excelente atendimento e troca do livro Samba que veio com defeito e o prazo para troca na loja já havia encerrado.