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segunda-feira, 4 de abril de 2016

MATURIDADE: MEU CORPO MINHAS REGRAS

Digo, pois, que todo o tempo que o herdeiro é menino em nada difere do servo, ainda que seja senhor de tudo; Mas está debaixo de tutores e curadores até ao tempo determinado pelo pai. Assim também nós, quando éramos meninos, estávamos reduzidos à servidão debaixo dos primeiros rudimentos do mundo. Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei para  remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos. E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai. Assim que já não és mais servo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro de Deus por Cristo. - Gálatas 4:1-7

Como já vimos nos dois primeiros textos sobre o tema maturidade, entendemos que a maturidade, não está relacionada ao tempo de vida, mas sim, às experiências vividas no tempo. E no texto acima Paulo descreve que, Deus aguardou até a plenitude dos tempos, para revelar-se de uma forma totalmente nova e diferenciada. Deus em sua sabedoria aguardou pacientemente para que Israel aprendesse com todas as experiências dolorosas que sofreu, que Deus é bondoso e amoroso.

Paulo, nos dá um relato simples, mas simbólico do processo de maturidade que passou a humanidade, do seu tempo de menino sob tutela até a maturidade:

1. Infância: Adão e Eva por ter uma visão equivocada do mundo e de Deus:

Como crianças mimadas enganadas pelos presentes que ganham, ao se verem num jardim criado para eles, acreditaram que deveriam ter tudo, inclusive ser "como Deus" - conhecedores do bem e do mau e tomaram da árvore que Deus havia dito que pertencia a Ele.

"Deus não nos ama e esta pronto para nos punir, por isso, devemos fazer tudo para não deixá-lo mais zangado que já é".

2. Escola: É o período dos patriarcas, juízes, reis e profetas. Onde a Lei é dada, pois a criança precisa de balizadores para seu comportamento, o faça assim e não assim é imprescindível para mantê-las em disciplina. Porém já era dado indícios da necessidade de pensarem por si só. 

"De maneira que a lei nos serviu de aio, para nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos justificados". - Gálatas 3:24

3. Plenitude dos tempos: Em Jesus, Deus desfaz todo o equivoco sobre sua imagem de velho rabugento e irado, e mostra toda a sua face amorosa, adotando toda a humanidade como filhos legítimos, pelo Espirito que clama Aba-Pai!

A plenitude dos tempos, é este tempo de maturidade, onde regras e preceitos não são mais necessários, e sim, uma nova forma de viver e encarar o mundo. É como se Cristo estivesse reivindicando: "MEU CORPO, MINHAS REGRAS".

Em várias referencias dos evangelhos, Jesus se utiliza de uma frase aparentemente simples, mas repleta de simbolismo: "Eu porém vos digo"; Antes de apenas simbolizar que com sua morte e ressurreição, a Lei seria cumprida e por isso abolida (Romanos 10:4), Jesus chama a atenção do povo para uma espiritualidade mais profunda, isto é, que excedesse o legalismo excessivo dos escribas e fariseus que priorizavam a lei antes da vida (Mateus 5:20). O que é também testificado pelo autor da carta aos Hebreus:

Porque se aquela primeira - Lei - fora irrepreensível, nunca se teria buscado lugar para a segunda (...) Porque repreendendo-os lhes diz: (...) estabelecerei uma nova aliança (...) porei as minhas leis no seu entendimento, e em seu coração as escreverei (...) porque serei misericordioso para com suas iniquidades, e de seus pecados e prevaricações não me lembrarei mais. Dizendo nova aliança, envelheceu a primeira. Ora, o que foi tornado velho, e se envelhece, perto está de acabar. - Hebreus 8:7-13

A obra que estava por ser realizada por Jesus, por meio de sua morte e ressurreição, estabeleceria um novo tempo, onde não caberia legalismos, e sim, uma fé que atua pelo amor, pois o amor é o cumprimento da Lei. (Romanos 13:10).  


4. Meu corpo, minhas regras: Mesmo após o clamor do Espirito Santo a Pedro para este entendimento, de que em Jesus até os gentios seriam salvos pela fé, sem as obras da lei (Atos 10 ), e não havendo entendimento por ele, mas dissimulação; Paulo entende que foi chamado para evangelizar os gentios (Gálatas 2). E a partir de então, nos chama ao despertamento para esta nova realidade. Em diversos trechos de suas cartas, ele convoca a igreja, a vivenciar esta maturidade, a deixar de lado os preceitos de homens e experimentar a nova vida em Cristo.

"E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo; Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo, para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente. Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, do qual todo o corpo, bem ajustado, e ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, faz o aumento do corpo, para sua edificação em amor" - Efésios 4:11-16

Paulo nos desafia a uma experiência de fé, em comunidade e em amor, sinalizando que nosso crescimento espiritual virá desta experiência até que cheguemos a estatura de Cristo, devendo então, buscar ardentemente o alimento espiritual necessário para isto.

A questão é, onde se perdeu toda esta busca por maturidade solicitada por Paulo que o faz clamar:  "Quem vos fascinou insensatos Gálatas, para não obedecerdes a verdade (...) tendo começado pelo espírito, acabeis agora pela carne?".

1. Na negligencia do homem com as coisas espirituais.

"Do qual muito temos que dizer, de difícil interpretação; porquanto vos fizestes negligentes para ouvir. Porque, devendo já ser mestres pelo tempo, ainda necessitais de que se vos torne a ensinar quais sejam os primeiros rudimentos das palavras de Deus; e vos haveis feito tais que necessitais de leite, e não de sólido mantimento. Porque qualquer que ainda se alimenta de leite não está experimentado na palavra da justiça, porque é menino. Mas o mantimento sólido é para os adultos, os quais, em razão da prática, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal." - Hebreus 5:11-14

O autor da carta inicia dizendo que tem mais a falar sobre a obra de Cristo, coisas mais profundas, entretanto o povo era negligente ao ouvir. Isto é, não davam a devida importância ou atenção, eram preguiçosos e desleixados no ouvir a palavra, e isso impossibilita o crescimento da fé. "De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus" (Romanos 10:17). Paulo, ainda afirma em Romanos 10 que, por desconhecerem a justiça de Deus, procuramos estabelecer nossa própria justiça, negando a justiça que vem de Cristo. O motivo de tal debilidade era consequência direta de serem ouvintes tardios em colocar em pratica a palavra de Deus. "Tornai-vos pois, praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos, a vós mesmos" (Tiago 1:19-27)

Paulo afirma que cristão criança, imaturo, é ainda um cristão carnal, egoísta, que busca seus próprios interesses e vontades. Como já vimos, são pessoas que tem incapacidade de se aprofundar nas verdades bíblicas, é levado por doutrinas humanas, demostra desinteresse pelas coisas espirituais, tem temperamento sensível, se ofende por qualquer motivo, e quer tudo a seu modo, sendo apenas espectador e não ativo na igreja.

2. Disposição para buscar apenas o que é do próprio interesse:

"Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; ao contrário, sentindo coceira nos ouvidos, juntarão mestres para si mesmos, segundo os seus próprios desejos. E desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas" - 2 Timóteo 4:3-4

Quantas religiões, igrejas e teorias teológicas existem? Quantas surgem a cada dia? Nada disso é novo ou não foi previsto. O próprio Jesus afirmou que surgiriam falsos cristos e que enganariam a muitos.

Perdemos a capacidade de discernir o Espirito de Deus, pois aquilo que soa agradável aos nossos ouvidos e interesses do coração, se tornam instantaneamente "verdade". Porém a verdade nos confronta em nossa identidade, em nosso caráter, em nossos afetos, livrando-nos do engano de que somos perfeitos e plenos. 

Paulo quando fala de maturidade, trata de comportamento e disposições afetivas e mentais, ele fala de maturidade com as lentes do amor, com um único propósito, que Cristo seja o cabeça.

"O propósito é que não sejamos mais como crianças, levados de um lado para outro pelas ondas, nem jogados para cá e para lá por todo vento de doutrina e pela astúcia e esperteza de homens que induzem ao erro. Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo" - Efésios 4:14,15

Pensei nisso!!

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

MATURIDADE - O TEMPO

E ele lhes disse: Por que me procuravam? 
Não sabem que devo tratar dos negócios do meu Pai? (...)
E desceu com eles, e foi para Nazaré, e era-lhes sujeito.(...)
E crescia Jesus em sabedoria, e em estatura, 
e em graça para com Deus e os homens.
Lucas 2:49-52



A maturidade, como já falamos, é o efeito de quem atingiu o pleno desenvolvimento de suas faculdades biológicas, comportamentais e espirituais. Assim, a faculdade comportamental é desenvolvida por meio das experiencias do nosso dia-dia, de como enxergamos o mundo, respondemos as contingencias da vida e nos reconhecendo no mundo como parte atuante.

Das analogias bíblicas sobre o processo de amadurecimento, citamos três: Criação, Cristo e Igreja, e através delas vemos o esforço de Deus para imputar nos seres humanos a responsabilidade por suas ações e a capacidade para lidar com as contingencias da vida sem se desumanizar.

O texto do Evangelho de Lucas, capitulo dois, nos dá uma amostra do quão precoce Jesus percebeu a sua missão e propósito, a ponto de não ter se importado com o que sofreriam Maria e José com o seu desaparecimento por dois dias para "cuidar dos negócios de seu Pai" e mito menos sem avaliar as consequência de se revelar antes da hora aos mestres da Lei. Imaturidade infanto-juvenil, claro que sim, e que poderia ter colocado tudo a perder.

O processo de amadurecimento passa pelo ato de reconhecer que "há tempo para tudo debaixo do sol" e que a "adultização precoce" também é nociva ao nosso desenvolvimento. Pular etapas do desenvolvimento humano, como vimos na historia da criação, pode comprometer um desenvolvimento comportamental e espiritual saudável. Será por isso que Deus se fez menino?

A serpente, ao enganar Eva, disse-lhe que ser conhecedora do bem e do mal, lhe faria igual a Deus. Entretanto, essa não era a verdade, pois Deus embora seja conhecedor do bem e do mal, é todo amor, não tendo outra escolha (livre arbítrio) a seguir, a não ser AMAR. Nas palavras do apóstolo Tiago, Deus não pode ser tentado pelo mal (Tiago 1:13). 

Em termos psicológicos, o que aconteceu com Adão e Eva, e o que estava prestes a acontecer com Jesus, foi o desenvolvimento intelectual precoce, proposto por uma exposição excessiva a convivência com adultos (no caso de Adão e Eva, comer o fruto do conhecimento, e de Jesus, a consciência de sua missão), em detrimento a um desenvolvimento emocional necessário, pois possibilitam o preparo  para lidar com as contingencia da vida.

Podemos citar três riscos iminentes que sofreria Jesus caso não entendesse a bronca dos pais e se recusasse a voltar para casa. São:

1. Risco de morte:
A escritura relata que havia uma ordem expressa de Herodes para assassinar todos os meninos nascidos em Belém, o que fez com que José levasse sua família para o Egito ate a morte do rei - Mateus 2:16-18. Não há certeza, mas  podemos supor que Jesus fosse o único sobrevivente dos meninos nascidos naquela época, e caso em sua permanência no templo, fosse inquirida a informação de seu nascimento, poderia correr risco de morte.

Pular uma etapa de vida, é como estar morto para aquele ciclo, todo o desenvolvimento necessário ficam comprometidas, afetando o futuro da pessoa, pois sem o amadurecimento, ela se torna um adulto incompleto e inapto para alguns aspectos da vida.

Também precisamos entender que a precipitação infantil, isto é, a falta de entendimento e a ânsia por fazer a vontade de Deus, pode colocar em risco nossa vida espiritual, principalmente quando ainda somos novos na fé. Muitas pessoas são machucadas por desejarem pular etapas de seu desenvolvimento espiritual e se decepcionam com facilidade ao entrar no âmbito eclesial onde acham que todos são espirituais, o que não se trata de uma verdade.

2. Risco da fé:
Embora Jesus demonstre nesta referencia consciência de sua missão, ele ainda não estava pronto. Seus conhecimentos da escritura eram surpreendentes para uma criança de sua idade, mas ainda não eram suficientes para se opor aos doutores da lei.

Devido sua ingenuidade, Jesus poderia ser facilmente induzido a erro, visto a astucia dos religiosos de sua época e sua permanência no meio dos doutores da lei, escribas e fariseus poderia colocar abaixo toda a sua simples sabedoria que falava ao coração do povo:

"Quando Jesus acabou de proferir estas palavras, estavam as multidões maravilhadas da sua doutrina, porque ele as ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas". - Mateus 7:28-29.

3. Risco Ministerial:
Outro risco que sofreria Jesus era o de não conseguir levar a diante seu ministério.
As profecias a cerca dele em Isaías eram claras, O justo haveria de morrer. Entretanto, esta não era a vontade dos religiosos. A esperança inculcada em Israel era de um Rei e general militar que livraria Israel do domínio Romano. Durante todo o ministério de Jesus, este também foi o anseio dos discípulos, que mesmo após sua ressurreição o indagaram a respeito (Atos 1:6).

Caso os religiosos não matassem Jesus, poderiam incita-lo a que esta era a vontade de Deus para ele, usando inclusive as escrituras.

"Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque fechais o reino dos céus diante dos homens; pois vós não entrais, nem deixais entrar os que estão entrando (...) ai de vós, porque rodeais o mar e a terra para fazer um novo convertido; e, uma vez feito, o tornais filho do inferno duas vezes mais do que vós!" - Mateus 23:13 e 15


Concluindo, Jesus precisava ainda do tempo ao lado dos pais, sendo criança, como diz o texto em "sujeição e obediência" para que pudesse então crescer em sabedoria (desenvolvimento emocional e psíquico para lidar com as contingencias da vida), estatura (crescimento físico) e graça (crescimento espiritual) antes de se aventurar no reino dos religiosos. Jesus precisava cumprir todas as etapas antes de iniciar seu ministério, precisava ser inteiro, estar amadurecido para se tornar um verdadeiro sumo sacerdote.

"Por isso mesmo, convinha que que, em todas as coisas se tornasse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas referentes a Deus e para fazer a propiciação pelos pecados do povo. Pois naquilo que ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, é poderoso para socorrer os que são tentados. Por isso, santos irmãos (...) considerais atentamente o Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa confissão, Jesus" - Hebreus 2: 17-18 e 3:1


domingo, 6 de dezembro de 2015

MATURIDADE - O SALTO-ALTO QUE DEUS NÃO TINHA

Um tema pouco falado hoje na igreja e que volta e meia me persegue é a maturidade, o efeito daqueles que atingiram o completo desenvolvimento de suas faculdades biológicas, comportamentais(psicológica) e espirituais. No que se refere a maturidade biológica, suas características são notadas: menstruação, crescimento da mama para as meninas, alteração da voz, crescimento dos pelos para os meninos, são alguns exemplos. Entretanto, é perceptível também que este processo não é igual em todos os seres, podemos ter desenvolvimento precoces e ou atrasado. A idade cronológica não é necessariamente a mesma da idade biológica.

A maturidade comportamental, surge das experiências do nosso dia-dia, através da forma com que enxergamos e respondemos as contingencias da vida. É o desafio de viver e se reconhecer no mundo como parte atuante e não apenas como parte existente e inerte. Já a maturidade espiritual, longe de ser experiências sobrenaturais e sobre-humanas, é manifestar no chão da vida, tudo o que se aprender, acredita e experimenta de Deus e com Deus. 

Vejo nas escrituras uma série de processos de amadurecimento comportamental e espiritual. Deus comunga deste processo conosco desde o Éden, como um pai-psicólogo, investindo no ser-humano para que este tenha responsabilidade por suas ações e capacidade para lidar com as contingências do mundo sem se perder ou melhor sem se desumanizar. Analogias não faltam, mas vou me prender apenas em três: Criação, Cristo, e Igreja.

1. Criação:

"Então, o Eterno plantou um jardim no Éden, e ali pôs o homem (...) o Eterno levou o homem para o jardim, para que cultivasse o solo e mantivesse tudo em ordem" - Gênesis 2:6 e 15.

Os processos de desenvolvimento comportamental de uma criança passa pela imitação dos adultos ao seu redor. Ela é como uma esponja que absorve e reproduz tudo: atitudes, expressões, vocabulário e até sentimentos sem o menor juízo de valores. Criança vê, criança faz. É a educação pelo exemplo. Muitas vezes me pego pesando, onde é que Deus estava com a cabeça quando colocou duas crianças para cuidar de um jardim. Adão e Eva tinham acabado de nascer, embora seus corpos demonstrassem a plenitude da maturidade, não se podia esperar muito de seu comportamento. Porém, o plano pedagógico de Deus eram modernos para a época, e Nietzsche concorda com Ele:

"O homem chega à sua maturidade 
quando encara a vida com a mesma seriedade 
que uma criança encara uma brincadeira." 

Sabiamente, Deus pede ao homem que dê nome a todos os animais. Algo que para um adulto (maduro) levaria três eternidades e meia apenas para chegar a algum consenso. Passaríamos horas a elogiar ou criticar cada um dos animais: "A zebra é branca com listas pretas ou é preta com listas brancas?"; Algo que para uma criança não tem sequer importância. A inocência em seu olhar a permite ver apenas a beleza pelo encantamento da "primeira vez".

"O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo..."
Alberto Caeiro

O jardim do Edén era o quintal onde Adão e Eva em sua infância mental, tinham tudo o que qualquer criança gostaria de ter. Criança gosta mesmo é de brincar: cheirar as flores e sentir a textura de suas pétalas brincado de bem-me-quer, ver as folhas voando com o vento, nadar nas águas gélidas do rio, correr sem direção, jogar-se na grama e ver formas inesperadas nas nuvens, subir em árvores, além de "conversar com os animais" quando não com amigos imaginários.

Pode parecer brincadeira de criança, mas o que a serpente fez com Eva foi justamente brincar de "se vestir como a mamãe" colocando não somente os vestidos, sapatos e acessórios, mas criando a necessidade de "ser como", e nisto, bem pode nos ajudar a famosa frase "Freud explica". Será Freud uma reencarnação da serpente?

O que Deus tinha que despertou tamanho desejo em Eva?
Deus não tinha saltos-altos, batons, vestidos ou maquiagens, tudo o que Eva poderia desejar hoje. Todavia, Deus tinha maturidade, era adulto, tinha "percepção da realidade (experiências de vida) e conhecimento para realizar juízo de valores (bem e mal)" - Gênesis 3:4 e 5.

E a morte?
Para nós serem humanos a morte começa quando chega a maturidade, Deus não mentiu.

A teologia estabeleceu que o pecado de Adão e Eva foi se rebelar conta Deus, fazendo sua própria vontade ao comer do fruto que era proibido. Minha questão não é esta.

As entrelinhas mostram que, o que ambos fizeram foi apenas desejar crescer, ser adulto, adquirir a maturidade do Pai, pois estavam extasiados com o que ele É, pelo encantamento da primeira vez. Porém quiseram fazer isto da forma mais fácil, sem adquirir responsabilidade que vem da experiencia do viver. Usaram o poder de escolha (livre arbítrio) para crescer antes da hora, Desconhecendo as reais consequências decidiram não aproveitar a vida e morrer antes do tempo. E ao perceberem o que tinham feito, mostraram claramente sua infantilidade:

  • Não pediram ajuda, antes fizeram roupas de folhas para si.
  • Tiveram medo e se esconderam, ao invés de encarar o comportamento incorreto.
  • Se acusaram mutuamente e acusaram a Deus, quando deveriam demostrar arrependimento.
Deus percebe que Adão e Eva ainda eram crianças e sua atitude é condizente com o que nossos pais fazem hoje: 
  • Os faz ter consciência do erro que cometeram.
  • Mostrou-lhes a real consequência de suas atitudes..
  • Acolhe e proteger, dando roupas de verdade.
A atitude de Adão e Eva e tipica de crianças e adolescentes, o desejo de ser adulto, da liberdade de ir e vir, de fazer o que quiser sem dar satisfação, não passa de uma ilusão infantil. E quando se deparam com a realidade, se frustram e passam a sua maioridade inteira desejando voltar atrás e ter a vida que tinham quando crianças, dependentes dos cuidados e manutenção dos pais, sem responsabilidades ou preocupações. Pessoas assim nunca se tornam plenamente adultos.

Fato é que em momento algum Deus se mostra este Pai irresponsável que dá tudo aos filhos esquecendo-se que isso um dia se voltará contra ele. Deus se ausenta, deixa que homem e mulher cumpram com suas responsabilidades - cultivar o solo e manter o jardim em ordem - e só retorna na viração do dia. Faz isso, pois quer que ambos construam sua maturidade na experiencia do viver, não através de leis, estatutos, proibições e ditames de certo ou errado. Nisto Freud tinha razão "A religião é comparável a uma neurose da infância" isto é, a incapacidade de lidar ou resolver conflitos internos ou externos de forma satisfatória, o que Paulo também condena:

"Assim, se com Cristo vocês deixaram para trás aquela religião pretensiosa e infantil,
por que agora se permitem intimidar por ela?
Não toqueis nisto! Não provem aquilo! Não cheguem perto daquilo!
(...) Ditas em voz alta, estas ordens podem impressionar. 
Chegam a parecer religiosas, evocando humildade e sacrifício.
Mas não passam de outra forma de autoprojeção de parecer importante."
Colossenses 2:20-23 


O risco que Deus correu ao corrigi-los, é o mesmo que os pais correm hoje em dia. A mesma brinca pode ter efeitos divergentes de acordo com a visão de mundo da criança: 1. Meus pais me amam e querem o melhor para mim, estão me ensinando a crescer. 2. Meus pais não me amam, por isso me podam e não me deixar fazer o que eu quero. Podemos ver esta visão em Caim, quando Deus o chama por causa de Abel. E a religião nasce deste sentimento, Deus não nos ama e esta pronto para nos punir, por isso, devemos fazer tudo para não deixá-lo mais zangado que já é.

Quem dera Eva não tivesse desejado apenas vestir os saltos-altos de Deus.

Pense nisso.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

EU, PORÉM, VOS DIGO


Vocês estão aqui para defender os indefesos,
para assegurar que os prejudicados tenham uma oportunidade de justiça.
O trabalho de vocês é proteger os fracos,
perseguir os que os exploram"
Salmo 82:3-4


Dizem que Jesus iniciou seu ministério com o Sermão do Monte, registrado no evangelho de Mateus. O texto nos diz muito sobre o caráter do ministério de Jesus e do que se espera dos homens que desejam entrar em seu Reino. Longe de uma pregação legalista, cheias de regras, Jesus desce no chão da vida e revela ao povo uma nova compreensão da espiritualidade e do Reino de Deus.

Como leigo entendo em meu espirito que, quando o apostolo João diz que "o verbo se fez carne e habitou entre nós" ele nem de longe quis afirmar que a palavra - a Bíblia - se materializou para provar sua autoridade e inerrância como acreditam alguns, mas que as atitudes, comportamentos e ações de Deus, e por isso - O verbo - estavam em Jesus, com o objetivo de revelar o coração do Pai. 

Testificando isto, o próprio Cristo afirma ao apóstolo Felipe quando este pediu para que Jesus mostrasse o Pai e ouviu "quem me vê, vê o Pai", afirmou ainda que "as palavras que dizia não eram simples palavras, mas palavras ditas por Deus e transformadas em ações divinas" e foi enfático com os escribas afirmando "Tudo o que faço foi autorizado por meu Pai, ações que falam mais alto que palavras (...) Eu e o Pai, somos um só coração e uma só mente" e por isso os religiosos da época atentaram contra sua vida, por se dizer Filho e igual ao Deus. Posso citar ainda o escritor de Hebreus que afirma "O Filho reflete perfeitamente quem Deus é e está selado com a natureza de Deus". Podemos, então, entender que tudo o que encontramos em Jesus é a realidade e expressão exata de Deus.

"Eu, porém, vos digo" é uma frase muito enfatizada por Jesus durante o Sermão do Monte, e longe de querer minimizar os escritos antigos, ele eleva termos da lei à uma profundidade maior, porém com uma simplicidade tamanha, buscando apenas a promoção da justiça, da paz e da alegria, contra o que acreditavam os sacerdotes da época que, a Lei precisava ser guardada e mantida. Com isso Jesus inicia um série de quebra de paradigmas com um único objetivo - que a conduta dos seus seguidores seja mais correta que a dos escribas, fariseus e doutores da lei - pois eles detinham o poder religioso e acreditavam possuir as chaves para o reino de Deus, entretanto Jesus afirma categoricamente que "eles impedem o povo de se chegar a Deus por meio de fardos e leis de homens que nem mesmo eles suportavam carregar".

Era o clamor dos profetas na Pessoa do Cristo: como afirma o escritor de Hebreus "passando por uma longa linha de profetas, Deus falou aos nossos antepassados séculos a fio, de diferentes maneiras. Em tempos recentes, a comunicação foi direta, por intermédio do seu Filho".

As reivindicações de Jesus em favor do pobre, da viuvá, do órfão, do oprimido, do estrangeiro/gentil e contra as riquezas, o legalismo e hipocrisia religiosa não se trata de algo novo, já estava na boca dos profetas de Israel, mas estes não deram ouvido, sendo o ponto alto dos planos de Deus, sua encarnação no Filho. 

Esvaziado de sua glória e poder, exalando apenas sua essência, ressignifica sua imagem de onipotência e soberania distante tão cultuada, mostrando quem realmente É - Deus é amor. Excluindo assim, as máscaras dos preconceitos, paradigmas, anseios, desejos e superstições de quem escreveu ou interpretou o que ouviu, distorcendo a essência de Deus para beneficio próprio.

Iluminados por isso, fica mais fácil enxergar durante toda a escritura o clamor de Deus contra o que os apóstolos vão chamar de "mundo" e "anti-cristo", um sistema de opressão cujo objetivo é roubar, matar e destruir, utilizando-se do poder, manipulando sobretudo a religião para se fazer prevalecer. Como alertou Paulo à Timóteo "sabemos, todavia que a Lei é boa, se alguém a usa da forma adequada". o que não é foi o caso de Israel e por isso Deus diz por meio de Jeremias "Eles invalidaram a minha aliança (...) a escreverei em seus corações".

Clique na foto para ampliá-la.

Que toda teologia seja feita a partir destas premissas: que Jesus é a imagem e expressão exata de Deus e toda a escritura deve ser lida e interpretada a partir dele, o alfa e o omega, o principio e o fim. Que os oprimidos sejam o seu alvo e beneficiários e toda injustiça seja condenada.

Este é o Evangelho do Reino, as boas novas para os excluídos e oprimidos, manifestado através do amor. Que possamos enxergar o mundo através destas lentes e buscar fazer dele um lugar melhor onde reine verdadeiramente o amor e a graça de Deus com justiça, paz e alegria.

Esta é minha teologia.


Referencias: 
Evangelho de Mateus, 5;20; Evangelho de João, 14:5-10; Evangelho de João, 10:25-30; Isaías 43:19; Epístola aos Hebreus 1:1 e 3; 1 Epístola de João 4:8; 1 Timóteo 1:8; Jeremias 31:32; Mateus 21:31-32.