Pages

domingo, 20 de dezembro de 2015

O TRIO DO FINAL DE ANO

As ultimas leituras de 2015 foram densas, foram os livros com poucas páginas que mais demorei a ler. Fica até difícil até escrever a respeito de cada um dos livros.



Homossexualidade - Perspectivas Cristãs
Um copilado de artigos sobre a igreja e a homossexualidade.
O mais incrível do livro, assuntos abordados na década de 1970 que estão sendo debatidos agora no Brasil, e sem a lucidez tratada no passado. Alguns segmentos da igreja são mesmo retrógrados, principalmente aqui.
Fonte Editorial - 184 páginas







Protestantismo Tupiniquim
Gedeon Alencar faz uma analise sobre as marcas do protestantismo e sua influencia na cultura brasileira. Do contexto histórico ao modismo do "gospel" ele desenrola com simplicidade e graça as hipóteses sobre a não contribuição do protestantismo em nossa cultura.
Arte editorial - 160 páginas






Beatitudes - As bem-aventuranças
A transcrição de 5 mensagens sobre o sermão do monte, realizadas por João Calvino entre 1561 e 1564. Questões teológicas a parte, foi incrível perceber como as pregações foram usadas para manipular opiniões e moldar o senso comum protestante. Recomendo a leitura não por considerar uma pregação inspiradora, mas para que percebam que quase nada mudou. #triste
Fonte Editorial - 120 páginas





Que venha 2016 e mais leituras.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

A VIDA É UM RISCO

A vida é um risco
Risco de a qualquer momento morrer
Risco de adoecer
Risco de com todos os riscos viver

Risco de se casar
Risco de não casar
De casar com a pessoa certa
De casar com a pessoa errada
De viver feliz pra sempre
Risco de se separar

Risco de trabalhe com o que gosta
De trabalhar com o que odeia
De ganhar muito dinheiro
De ganhar só o sustento
Risco de não trabalhar

Risco de conquistar um diploma
De bombar, pegar exame
De trocar os cursos
De decidir já na velhice
Risco de não estudar

A vida é um risco
Risco de crescer,
de amadurecer, de viver adolescente
Risco de mesmo adulto ser inconsequente.
Risco de ver a vida passar
De não aproveitar nada
De se lamentar
Risco aproveitar exageradamente
Sexo, drogas, baladas, vida louca
Risco da vida estragar

Risco viver intensamente
Loucuras e prazeres
Santidade e deveres
Risco de ser livre

A vida é um risco
Do medo de errar
Do prazer de arriscar
Da coragem de não desistir
Da ousadia ao persistir

Viver é arriscar
Arriscar ser feliz
Arriscar sorrir
Arriscar sofrer
Arriscar doer

Arriscar ...Ar riscar... A riscar
E escrever uma historia bonita.
Que é viver.

domingo, 6 de dezembro de 2015

MATURIDADE - O SALTO-ALTO QUE DEUS NÃO TINHA

Um tema pouco falado hoje na igreja e que volta e meia me persegue é a maturidade, o efeito daqueles que atingiram o completo desenvolvimento de suas faculdades biológicas, comportamentais(psicológica) e espirituais. No que se refere a maturidade biológica, suas características são notadas: menstruação, crescimento da mama para as meninas, alteração da voz, crescimento dos pelos para os meninos, são alguns exemplos. Entretanto, é perceptível também que este processo não é igual em todos os seres, podemos ter desenvolvimento precoces e ou atrasado. A idade cronológica não é necessariamente a mesma da idade biológica.

A maturidade comportamental, surge das experiências do nosso dia-dia, através da forma com que enxergamos e respondemos as contingencias da vida. É o desafio de viver e se reconhecer no mundo como parte atuante e não apenas como parte existente e inerte. Já a maturidade espiritual, longe de ser experiências sobrenaturais e sobre-humanas, é manifestar no chão da vida, tudo o que se aprender, acredita e experimenta de Deus e com Deus. 

Vejo nas escrituras uma série de processos de amadurecimento comportamental e espiritual. Deus comunga deste processo conosco desde o Éden, como um pai-psicólogo, investindo no ser-humano para que este tenha responsabilidade por suas ações e capacidade para lidar com as contingências do mundo sem se perder ou melhor sem se desumanizar. Analogias não faltam, mas vou me prender apenas em três: Criação, Cristo, e Igreja.

1. Criação:

"Então, o Eterno plantou um jardim no Éden, e ali pôs o homem (...) o Eterno levou o homem para o jardim, para que cultivasse o solo e mantivesse tudo em ordem" - Gênesis 2:6 e 15.

Os processos de desenvolvimento comportamental de uma criança passa pela imitação dos adultos ao seu redor. Ela é como uma esponja que absorve e reproduz tudo: atitudes, expressões, vocabulário e até sentimentos sem o menor juízo de valores. Criança vê, criança faz. É a educação pelo exemplo. Muitas vezes me pego pesando, onde é que Deus estava com a cabeça quando colocou duas crianças para cuidar de um jardim. Adão e Eva tinham acabado de nascer, embora seus corpos demonstrassem a plenitude da maturidade, não se podia esperar muito de seu comportamento. Porém, o plano pedagógico de Deus eram modernos para a época, e Nietzsche concorda com Ele:

"O homem chega à sua maturidade 
quando encara a vida com a mesma seriedade 
que uma criança encara uma brincadeira." 

Sabiamente, Deus pede ao homem que dê nome a todos os animais. Algo que para um adulto (maduro) levaria três eternidades e meia apenas para chegar a algum consenso. Passaríamos horas a elogiar ou criticar cada um dos animais: "A zebra é branca com listas pretas ou é preta com listas brancas?"; Algo que para uma criança não tem sequer importância. A inocência em seu olhar a permite ver apenas a beleza pelo encantamento da "primeira vez".

"O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo..."
Alberto Caeiro

O jardim do Edén era o quintal onde Adão e Eva em sua infância mental, tinham tudo o que qualquer criança gostaria de ter. Criança gosta mesmo é de brincar: cheirar as flores e sentir a textura de suas pétalas brincado de bem-me-quer, ver as folhas voando com o vento, nadar nas águas gélidas do rio, correr sem direção, jogar-se na grama e ver formas inesperadas nas nuvens, subir em árvores, além de "conversar com os animais" quando não com amigos imaginários.

Pode parecer brincadeira de criança, mas o que a serpente fez com Eva foi justamente brincar de "se vestir como a mamãe" colocando não somente os vestidos, sapatos e acessórios, mas criando a necessidade de "ser como", e nisto, bem pode nos ajudar a famosa frase "Freud explica". Será Freud uma reencarnação da serpente?

O que Deus tinha que despertou tamanho desejo em Eva?
Deus não tinha saltos-altos, batons, vestidos ou maquiagens, tudo o que Eva poderia desejar hoje. Todavia, Deus tinha maturidade, era adulto, tinha "percepção da realidade (experiências de vida) e conhecimento para realizar juízo de valores (bem e mal)" - Gênesis 3:4 e 5.

E a morte?
Para nós serem humanos a morte começa quando chega a maturidade, Deus não mentiu.

A teologia estabeleceu que o pecado de Adão e Eva foi se rebelar conta Deus, fazendo sua própria vontade ao comer do fruto que era proibido. Minha questão não é esta.

As entrelinhas mostram que, o que ambos fizeram foi apenas desejar crescer, ser adulto, adquirir a maturidade do Pai, pois estavam extasiados com o que ele É, pelo encantamento da primeira vez. Porém quiseram fazer isto da forma mais fácil, sem adquirir responsabilidade que vem da experiencia do viver. Usaram o poder de escolha (livre arbítrio) para crescer antes da hora, Desconhecendo as reais consequências decidiram não aproveitar a vida e morrer antes do tempo. E ao perceberem o que tinham feito, mostraram claramente sua infantilidade:

  • Não pediram ajuda, antes fizeram roupas de folhas para si.
  • Tiveram medo e se esconderam, ao invés de encarar o comportamento incorreto.
  • Se acusaram mutuamente e acusaram a Deus, quando deveriam demostrar arrependimento.
Deus percebe que Adão e Eva ainda eram crianças e sua atitude é condizente com o que nossos pais fazem hoje: 
  • Os faz ter consciência do erro que cometeram.
  • Mostrou-lhes a real consequência de suas atitudes..
  • Acolhe e proteger, dando roupas de verdade.
A atitude de Adão e Eva e tipica de crianças e adolescentes, o desejo de ser adulto, da liberdade de ir e vir, de fazer o que quiser sem dar satisfação, não passa de uma ilusão infantil. E quando se deparam com a realidade, se frustram e passam a sua maioridade inteira desejando voltar atrás e ter a vida que tinham quando crianças, dependentes dos cuidados e manutenção dos pais, sem responsabilidades ou preocupações. Pessoas assim nunca se tornam plenamente adultos.

Fato é que em momento algum Deus se mostra este Pai irresponsável que dá tudo aos filhos esquecendo-se que isso um dia se voltará contra ele. Deus se ausenta, deixa que homem e mulher cumpram com suas responsabilidades - cultivar o solo e manter o jardim em ordem - e só retorna na viração do dia. Faz isso, pois quer que ambos construam sua maturidade na experiencia do viver, não através de leis, estatutos, proibições e ditames de certo ou errado. Nisto Freud tinha razão "A religião é comparável a uma neurose da infância" isto é, a incapacidade de lidar ou resolver conflitos internos ou externos de forma satisfatória, o que Paulo também condena:

"Assim, se com Cristo vocês deixaram para trás aquela religião pretensiosa e infantil,
por que agora se permitem intimidar por ela?
Não toqueis nisto! Não provem aquilo! Não cheguem perto daquilo!
(...) Ditas em voz alta, estas ordens podem impressionar. 
Chegam a parecer religiosas, evocando humildade e sacrifício.
Mas não passam de outra forma de autoprojeção de parecer importante."
Colossenses 2:20-23 


O risco que Deus correu ao corrigi-los, é o mesmo que os pais correm hoje em dia. A mesma brinca pode ter efeitos divergentes de acordo com a visão de mundo da criança: 1. Meus pais me amam e querem o melhor para mim, estão me ensinando a crescer. 2. Meus pais não me amam, por isso me podam e não me deixar fazer o que eu quero. Podemos ver esta visão em Caim, quando Deus o chama por causa de Abel. E a religião nasce deste sentimento, Deus não nos ama e esta pronto para nos punir, por isso, devemos fazer tudo para não deixá-lo mais zangado que já é.

Quem dera Eva não tivesse desejado apenas vestir os saltos-altos de Deus.

Pense nisso.

domingo, 29 de novembro de 2015

ESCOLHA


Quem escolhe a própria sexualidade?
Embora haja uma quantidade grande de pessoas que acreditam que o desejo sexual de alguém seja uma escolha, uma opção, eu acredito que não. Verdade é que, nunca ouvi um heterossexual dizendo: escolhi ser hétero. Por que um gay deveria?

Há quem acredite que em tempos imemoriais eu tenha feito esta escolha, consciência dela, não tenho. Embora tenha sentido seus impactos mais fortes durante aproximadamente 30 anos da minha vida. Estas mesmas pessoas acreditam que eu deva fazer outra escolha.

O dia amanheceu belo, era outono, 27 de maio de 1980, uma família cristã que já contava com duas meninas recebia naquele dia, um lindo menino de olhos verdes brilhantes. O principezinho Davi chegava para alegrar a família. Não é possível descrever a alegria que sentiram pelo seu nascimento, mas eles não sabiam que aquela criança havia sido predestinada ao sofrimento.

A medida que ia crescendo, algumas coisas foram ficando aparentes para ele. Mas para quem?

Seu desgosto com o futebol, não por falta de tentativa, mas por sua inabilidade com a bola, antes acertava a canela dos colegas. Era o ultimo a ser escolhido pelos times, isso quando não era excluído da brincadeira. Isolado, sua única opção era se unir as meninas em suas brincadeiras. Não era chegado a brincadeiras de luta, como seu irmão mais novo, não gostava de brigar na rua e geralmente voltava para casa chorando. Poucas vezes se atreveu a revidar alguma agressão. Quando chegou a fase escolar tinha problema com os meninos da turma, bom aluno e quieto, já estava acostumado à companhia das meninas e isso era motivo de chacota, menininha, marcas, CDF entre outros adjetivos. Adorava dançar e quis fazer ginástica olímpica, sabia de cor as coreografias das músicas dos grupos infantis da época e isso agravava as ofensas que recebia. Devido às várias agressões verbais que sofria, se tornou seletivo nas amizades. Com poucos amigos, se tornou mais caseiro e amantes dos estudos e livros. Na adolescência percebeu que chamava a atenção mais dos homens que das mulheres, uns para ofende-lo e outros com insinuações do tipo "é disso que ele gosta" seguido de uma balançada no "documento". Tinha medo, fugia e chorava, embora a cada dia tomasse a consciência do que poderia ser, a única coisa que o deixava com mais medo era crescer e ficar parecido com Clodovil Hernandez, Seu Peru ou a aterrorizante Vera Verão.

Aos 13 anos decidiu se batizar na igreja, a promessa cristã de "receber uma nova vida" o fez acreditar que como mágica tudo mudaria. Fiel e dedicado, se doou de coração a jejuns, orações e leituras da bíblia, em pouco tempo era bem visto por sua sabedoria e conhecimento das escrituras. O que ele não entendia é o porque as coisas não mudavam. As insinuações agora aconteciam no ônibus, metro ou mesmo no trabalho. Assédios sexuais foram poucos, porém assustadores, duas vezes no trabalho, duas vezes no metro onde inclusive chegaram a passar-lhe a mão, além de um convite para sair com um homem mais velho "porque eu sei que é disso que você gosta e ninguém precisa saber". Tudo isso intensificou a sua fé e busca de Deus, pois o Senhor. E sua juventude foi marcada pelo medo e choro, entre jejuns e orações para que Deus o livrasse de ser uma abominação e condenado ao inferno. Ele não queria ser gay e a religião era seu escudo e sua vida. Evitava sair com os amigos para entretenimentos "mundanos" e intensificou suas atividades na igreja como forma de "pagar" o amor de Deus, mas nem mesmo na igreja conseguiu se livrar dos ataques que sofria, havia desconfiança de alguns e de onde deveria receber amor incondicional e ajuda, recebeu também acoites ao ponto de ser proibido de ter amizades  com alguns sob a acusação poder pervertê-los. Neste interim, teve 3 relacionamentos com meninas que não deram certo. Se dizia apaixonado, mas eram sempre amores platônicos e impossíveis. Se tornou pastor e continuava orando, esperando o milagre de sua transformação. Em tudo isso sofria sozinho e calado.

Quem pode avaliar a tristeza, a dor, o medo e a pressão psicológica pela cobrança de si mesmo, dos outros em relação a sua sexualidade, pois "todos da sua idade já namoram e você nada", além do ataque daqueles que desconfiavam e estavam apenas aguardando a confirmação para colocar toda a sua malignidade e preconceito para fora.

Atribui-se a Sigmund Freud a frase "Como fica forte uma pessoa quando esta segura de ser amada", e o que menos se sente nesta posição é que se é amado. Sentir-se deslocado em relação a si mesmo, aos outros e ao mundo se torna natural. Estar em outra realidade e tentar sobreviver não é uma escolha mas a única opção, mas com consequências pesadas pela autoacusação de estar vivendo uma mentira.

Apaixonei a primeira vez, por um homem, a certeza de sua homossexualidade aos 28 anos, o desejo de viver e experienciar tudo o que rejeitou durante toda a vida se misturam a ansiedade e ao medo. O fortalecimento pelo fogo da paixão, a coragem, a ousadia, o reconhecimento de quem se é de verdade. A coragem para se declarar e o desespero pela primeira desilusão amorosa, motivo de depressão, de pensamentos suicidas, da perda da voz e do afastamento da igreja por não querer mais mentir dizendo "estar esperando em Deus a futura namorada". .

Estava sendo forçado a fazer um nova escolha.
Um processo de redescoberta que incluía o "sair do armário".
Mais sofrimento, mas um sofrimento libertador

Escolhi me amar como sou, me aceitei e aprendi a me  re-conhecer.
Escolhi "abandonar as roupas e usadas, que já tem a forma do nosso corpo, esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos"  (*)
Escolhi não me deixar levar por pensamentos de suicídio e nem pela depressão.
Escolhi ter segurança no que quero e em como construiria meu novo eu.
Escolhi ficar ao lado de pessoas que me admiram pelo que sou e não pelo status que podia oferecer, pois me tornei uma pessoa não grata em alguns círculos.
Escolhi não me reduzir a rótulos e opiniões de quem não sabe minha historia.
Escolhi não me intimidar com os discursos de ódio e pela falta de amor dos que se decepcionam com a verdade.
Escolhi pelo amor incondicional de Deus e pelo amor de quem me ama e respeita de verdade.
Escolhi mesmo que contra todas as circunstancias negativas (social), ser feliz.
Escolhi usar o que foi motivo de prisão para minha própria libertação:
Dançar quando tiver vontade, rir até a barriga doer, lutar pela vida e pela paz com todos.
Estudar, devorar livros, ir ao cinema, sair com os amigos ou, ficar em casa acordados até de manhã.
Escolhi não deixar a religião, ir a igreja, orar e jejuar foram resignificados, não mais por tristeza mas por alegria.
Escolhi comungar da presença de Deus que está nas pessoas comuns, não em "vacas sagradas" hipócritas e desumanas.
Escolhi me apaixonar pelo belo, pelo virtuoso e pelo bom, pelo que vale a pena.
Me sentir amado. 
Ser feliz.

Escolhi viver...mesmo que para você isso se resuma a ser gay.



(*) Texto:
Tempo de Travessia
Autor: Fernando Teixeira de Andrade


domingo, 15 de novembro de 2015

NÔMADE

Ayaan Hirsi Ali, uma mulher somali, ex- muçulmana que fugindo de um casamento arranjado por seu pai, se refugia na Europa e depois Estados Unidos, nos revela com sua historia de vida, o que uma cultura de soberania masculina, fortalecida por ritos religiosos pode fazer contra suas mulheres e contra aqueles que se poe a seus dogmas e leis.

Violência doméstica, proibição de estudar, devoção irrestrita aos homens, mutilação genital, esta é a vida de muitas meninas muçulmanas pelo mundo, de acordo com ela. Uma vida de clausura não somente do corpo que em alguns países, precisa estar completamente cobertos, da mente pois são proibidas de estudar, da individualidade pois como propriedades do pai e precisam viver para honra-lo, uma moça "violada" além de vergonha para a família, não tem valor algum no mercado de casamento, mas também na clausura de sua sexualidade, para serem privadas do prazer sexual, são mutiladas ainda meninas, seu clitóris e esmagado e os lábios vaginais costurados para que elas sintam dor. 

O clamor de Ayaan ultrapassa a reclamação de uma rebelde, fugitiva, é o clamor de uma mulher que contra a própria vida, ousou falar contra um sistema que mantém vários povos do mundo e principalmente as mulheres debaixo da pobreza extrema e de condições desumanas com base em um discurso religioso que se utiliza da cultura da violência e do medo para se manter.

Entretanto Ayaan vai além, revela a face extremista de uma religião que segundo consta é a que mais cresce no mundo, o Islamismo. Ela sem medo da pena de morte que recebeu por se dizer uma ex-muçulmana e agora uma infiel - nome dado à todos os que não professam sua fé ou que a deixam - detalha as intenções destes radicais e como estão se infiltrando na Europa e Estados Unidos para colocar em pratica seu plano diabólico de destruição de todo o Ocidente, Para ela, os radicais acreditam estar em uma guerra santa entre Alá e o Profeta e todos aqueles que a partir do Iluminismo, se desviaram da verdade, adotando a razão e a ciência como ponto de apoio para a vida e não mais a fé em Deus.

Para Ayaan, que iniciou sua jornada contra o Islã radical após os atentados terroristas de 11 de Setembro, o que fortalece o Islã  é a vida pre-moderna dos países declarados muçulmanos, pois sua cultura teocrática possibilita a manutenção do poder dos radical por meio da pobreza extrema, violência e  proibição do acesso a educação. O sistema de manipulação o que ela chama de lavagem cerebral é tão planejado que eles atribuem todas as mazelas que subjugam o povo aos "pecados do Ocidente", utilizando se do Alcorão para firmar que todos os que não vivem sob os preceitos de Alá e do Profeta devem ser exterminados. 

Longe de acreditar que todo muçulmano é radical e terrorista, ela nos alerta para o fato de que, desde cedo, todo muçulmano é doutrinado a acreditar que os infiéis devem ser exterminados, e que apenas isto basta para que eles se levantem contra os ocidentais para honrem a Alá e ao Profeta. Para ela, todos são terroristas em potencial, uma vez que já que o fazem com suas mulheres, citando várias referencias do Alcorão em que o Profeta ordena que elas sejam violentadas.

                                                                             * * *

Nesta semana em que um ataque terrorista em Paris na França matou cerca de 120 pessoas, muito do que Ayaan descreve no livro se torna real, de acordo com a mídia o Estado Islâmico se declarou culpado pelos atentados e esclareceu ser este apenas o começo da vingança de Alá contra Ocidente, e que a França e quem a segue são seu principais alvos.

Durante todas as 384 páginas ela fala muito sobre o Iluminismo, momento histórico do século 18 iniciado na França cujos pilares principais estão a defesa da educação, centralidade da ciência e da razão, a liberdade religiosa e individual e os direitos de igualdade de todos perante a lei. Para ela o Iluminismo propiciou o desenvolvimento do Ocidente e são seus pilares que vão contra os ditames do Islã e são a causa de tamanho ódio e sentimento de vingança.

                                                                            * * *

Nômade
Aayan Hisri Ali
Companhia das Letras
388 páginas

sábado, 24 de outubro de 2015

UMA VIDA OCULTA NOS LIVROS

Quem conhece a Bíblia, deve ter se dado conta que, não se pode desconsiderar a história de uma homem, é nela que Deus se faz presente comungando das alegrias, sofrimentos do dia-dia e algumas vezes, intervindo sobrenaturalmente com um fim muito especifico. O Apóstolo Paulo nos alerta na primeira carta aos Corintios ao discorrer sobre a história de Israel que "tudo isto lhes sobreveio como figuras, e estão escritas para aviso nosso" (1 Co 10:11). Porém há nestas histórias lacunas que se preenchidas, podem nos auxiliar a entender melhor comportamentos e rupturas, melhorando nossa percepção sobre esta historia. Mas alguns mistérios nunca serão revelados e depende de nós buscar esta compreensão enxergando além das palavras.

Quem pode explicar como Deus convenceu a Noé de que haveria um diluvio e que deveria construir a Arca, se nunca havia chovido? E com Abraão, que saiu de sua casa para peregrinar por anos pelo deserto com a promessa de que encontraria um lugar e que seria pai de muitos filhos? Até o dia em que Deus se apresentou por meio da sarça ardente, quais os pensamentos que subiam ao coração de Moisés sabendo-se Hebreu e que seu povo estava sendo mortalmente escravizado? Porque Maria aceitou conceber o Cristo, sabendo que estava colocando sua própria vida em risco? Será mesmo que ela aceitou de forma imediata como está escrito? E os anos de Paulo no deserto em que diz ter aprendido o evangelho e seus mistérios do próprio Cristo? 

Vejo nas entrelinhas do que Ricardo Gondim escreve, nuvens encobrindo segredos do trabalhar de Deus em sua vida, processos espirituais de quem não se acomoda com imperativos e imposições que não estão alinhados com a vida experimentada pela maioria das pessoas. Em alguns momentos ele revela estes processos mas de forma tão sucinta, que só aumentam o desejo de se sentar, parar e ouvi-lo por horas, para assim compreender melhor como foi levado a romper com muitas estruturas teológicas e dogmas e, de um conferencista famoso, se tornar um "herege" no meio cristão evangélico, e isso, sem perder a fé em Deus e a confiança em seu amor.

Desde seu livro "Pra começo de conversa" já indicado aqui, tenho as experiencias de Gondim como um exemplo claro do que aconteceu com alguns personagens bíblicos, e longe de idolatra-lo, busco me reconhecer nestes processos, lembrando-me do adolescente questionador que foi orientado pelo pastor a fazer questionamentos apenas a ele, para não causar duvidas e problemas entre os irmãos.

Nos livros que indico, Gondm escreve sobre a teologia que conduz sua jornada e como ela foi sendo moldada através de suas experiencias de vida e que construíram quem ele é e o que representa para seus apreciadores, como também, para a formatação de uma igreja que assim como ele, passa por um processo de amadurecimento para se contextualizar e ser relevante no mundo e na sociedade em que está inserida

Leia, quem sabe você se reconhece também.

Possibilidades para a Fé Cristã
Fonte Editorial
229 páginas

Pensando Fora da Caixa
Fonte Editorial
150 paginas

É proibido
Editora Mundo Cristão
129 páginas

Deus imerso no sofrimento Humano
Editora Doxa
141 páginas

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

EU, PORÉM, VOS DIGO


Vocês estão aqui para defender os indefesos,
para assegurar que os prejudicados tenham uma oportunidade de justiça.
O trabalho de vocês é proteger os fracos,
perseguir os que os exploram"
Salmo 82:3-4


Dizem que Jesus iniciou seu ministério com o Sermão do Monte, registrado no evangelho de Mateus. O texto nos diz muito sobre o caráter do ministério de Jesus e do que se espera dos homens que desejam entrar em seu Reino. Longe de uma pregação legalista, cheias de regras, Jesus desce no chão da vida e revela ao povo uma nova compreensão da espiritualidade e do Reino de Deus.

Como leigo entendo em meu espirito que, quando o apostolo João diz que "o verbo se fez carne e habitou entre nós" ele nem de longe quis afirmar que a palavra - a Bíblia - se materializou para provar sua autoridade e inerrância como acreditam alguns, mas que as atitudes, comportamentos e ações de Deus, e por isso - O verbo - estavam em Jesus, com o objetivo de revelar o coração do Pai. 

Testificando isto, o próprio Cristo afirma ao apóstolo Felipe quando este pediu para que Jesus mostrasse o Pai e ouviu "quem me vê, vê o Pai", afirmou ainda que "as palavras que dizia não eram simples palavras, mas palavras ditas por Deus e transformadas em ações divinas" e foi enfático com os escribas afirmando "Tudo o que faço foi autorizado por meu Pai, ações que falam mais alto que palavras (...) Eu e o Pai, somos um só coração e uma só mente" e por isso os religiosos da época atentaram contra sua vida, por se dizer Filho e igual ao Deus. Posso citar ainda o escritor de Hebreus que afirma "O Filho reflete perfeitamente quem Deus é e está selado com a natureza de Deus". Podemos, então, entender que tudo o que encontramos em Jesus é a realidade e expressão exata de Deus.

"Eu, porém, vos digo" é uma frase muito enfatizada por Jesus durante o Sermão do Monte, e longe de querer minimizar os escritos antigos, ele eleva termos da lei à uma profundidade maior, porém com uma simplicidade tamanha, buscando apenas a promoção da justiça, da paz e da alegria, contra o que acreditavam os sacerdotes da época que, a Lei precisava ser guardada e mantida. Com isso Jesus inicia um série de quebra de paradigmas com um único objetivo - que a conduta dos seus seguidores seja mais correta que a dos escribas, fariseus e doutores da lei - pois eles detinham o poder religioso e acreditavam possuir as chaves para o reino de Deus, entretanto Jesus afirma categoricamente que "eles impedem o povo de se chegar a Deus por meio de fardos e leis de homens que nem mesmo eles suportavam carregar".

Era o clamor dos profetas na Pessoa do Cristo: como afirma o escritor de Hebreus "passando por uma longa linha de profetas, Deus falou aos nossos antepassados séculos a fio, de diferentes maneiras. Em tempos recentes, a comunicação foi direta, por intermédio do seu Filho".

As reivindicações de Jesus em favor do pobre, da viuvá, do órfão, do oprimido, do estrangeiro/gentil e contra as riquezas, o legalismo e hipocrisia religiosa não se trata de algo novo, já estava na boca dos profetas de Israel, mas estes não deram ouvido, sendo o ponto alto dos planos de Deus, sua encarnação no Filho. 

Esvaziado de sua glória e poder, exalando apenas sua essência, ressignifica sua imagem de onipotência e soberania distante tão cultuada, mostrando quem realmente É - Deus é amor. Excluindo assim, as máscaras dos preconceitos, paradigmas, anseios, desejos e superstições de quem escreveu ou interpretou o que ouviu, distorcendo a essência de Deus para beneficio próprio.

Iluminados por isso, fica mais fácil enxergar durante toda a escritura o clamor de Deus contra o que os apóstolos vão chamar de "mundo" e "anti-cristo", um sistema de opressão cujo objetivo é roubar, matar e destruir, utilizando-se do poder, manipulando sobretudo a religião para se fazer prevalecer. Como alertou Paulo à Timóteo "sabemos, todavia que a Lei é boa, se alguém a usa da forma adequada". o que não é foi o caso de Israel e por isso Deus diz por meio de Jeremias "Eles invalidaram a minha aliança (...) a escreverei em seus corações".

Clique na foto para ampliá-la.

Que toda teologia seja feita a partir destas premissas: que Jesus é a imagem e expressão exata de Deus e toda a escritura deve ser lida e interpretada a partir dele, o alfa e o omega, o principio e o fim. Que os oprimidos sejam o seu alvo e beneficiários e toda injustiça seja condenada.

Este é o Evangelho do Reino, as boas novas para os excluídos e oprimidos, manifestado através do amor. Que possamos enxergar o mundo através destas lentes e buscar fazer dele um lugar melhor onde reine verdadeiramente o amor e a graça de Deus com justiça, paz e alegria.

Esta é minha teologia.


Referencias: 
Evangelho de Mateus, 5;20; Evangelho de João, 14:5-10; Evangelho de João, 10:25-30; Isaías 43:19; Epístola aos Hebreus 1:1 e 3; 1 Epístola de João 4:8; 1 Timóteo 1:8; Jeremias 31:32; Mateus 21:31-32.