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quinta-feira, 17 de março de 2016

JESUS CURA A HOMOFOBIA, MAS...

PREFÁCIO

O evangelista João, nos relata que certo dia após Jesus foi ao Templo e grande número de pessoas o rodeou e ele ao começar a ensiná-las, foi confrontado pelos mestres da lei e fariseus que apareceram com um rapaz, pego em comportamentos homossexual. Eles o puseram a vista de todos e disseram: "Mestre, este rapaz é gay, foi apanhado em flagrante. Moisés, na sua Lei, ordenou que fosse morto. O que  senhor diz?

Escrito isto, João para a narrativa e nos revela que os religiosos que ali se apresentaram queriam pegar Jesus em uma armadilha, queriam induzi-lo a dizer algo para que o pudessem incriminar.

A narrativa continua, com Jesus abaixado e limitando-se a escrever com o dedo na terra. Mas eles não desistiram. Por fim, ele se levantou e disse: "Quem de vocês não tiver pecado seja o primeiro a atirar a pedra". Encurvando-se novamente, continuou a escrever na terra.

Ouvindo isso, eles começaram a deixar o local, um após o outro, a começar pelos mais velhos. Nota-se que até mesmo os que não estavam envolvidos com a situação, acabaram indo embora.

O rapaz foi deixada ali. Jesus levantou-se e perguntou: "Rapaz, onde eles estão? Ninguém condenou você?" Ninguém senhor, foi a resposta. "Nem eu", disse Jesus. "Siga seu caminho. Mas de agora em diante, não volte a pecar".

João 8: 1-11 - A mulher adultera.
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O texto do Evangelho de João adaptado aqui, não está longe de ser uma realidade em nossos dias. Tão chocante quando o episódio na época em que aconteceu, é ainda hoje a conduta de certas religiões a respeito da aceitação ao não de pessoas homossexuais nas igrejas.

Recentemente, uma igreja Batista em Alagoas, após 10 anos de intensos debates junto a sua comunidade de fé, decidiu em assembleia aceitar pessoas homossexuais como membros. O processo legal e democrático, teve 129 favoráveis, 3 contrários e 15 abstenções. Mas longe de entenderem todo o processo realizado por esta igreja, muitos estão se levantando contra os pastores em notas de repudio, etc. O texto que li a respeito (AQUI) aparentemente, uma carta do pastor da igreja, expressa que a motivação da comunidade para entrar neste processo foi a alegação de um membro da igreja de ser homossexual. O texto relata que na ocasião houve alguns desconfortos, alguns membros decidiram sair da igreja, mas muito outros se desafiaram a entender e se debruçaram no assunto que culminou na decisão tomada pelo povo.

Fico pensando o quão paciente não foi este "rapaz", aguardando por 10 anos para se ver aceito não apenas pelos irmãos da sua comunidade de fé, mas no que refere-se a igreja, aceito por Deus. Isto, se ele conseguiu suportar. Espero que sim.

Mas não é este o comportamento da maioria dos homossexuais e muito menos das igrejas cristãs. Se o comportamento de ambos fossem realmente bíblico, não existiriam igrejas inclusivas. Este processo já nos é conhecido, explicitamente mostrado no livro de Atos, quando houve uma assembleia para declarar se aceitavam os gentios ou não, contrariando inclusive as ordens de Deus a Pedro: "não considere imundo o que eu santifiquei", (Atos 10)

Longe de ditar regras, falo a partir das minhas experiências neste mesmo processo de aceitação amorosa por uma comunidade de fé. Falo aos homossexuais que desejam fazer parte de uma igreja que não seja uma igreja inclusiva ou igreja gay (como dizem por ai). Gostaria na verdade de esclarecer alguns pontos que considero importantes:

Jesus cura a homofobia, mas...

1. Precisamos também ser curados:
Um grande número de homossexuais sofrem e sofreram em suas relações interpessoais, foram abusados, enganados, rejeitados, violentados e violados no corpo e sentimentos. Devido a isso, possuem dificuldade ao se relacionar, são desconfiados, carentes afetivamente e tornam-se egoístas e mestres em querer ser o centro das atenções. Como resultado, se colocam geralmente, em posição de vitima,  tudo é preconceito e discriminação, o  que não é verdade.

Enquanto não nos desarmarmos, dificilmente permaneceremos em algum lugar. Uma coisa é certa, mesmo aceitos, nem todas as pessoas irão simpatizar ou ter afinidades conosco, isso faz parte das relações humanas e não quer dizer que por isso, são homofóbicos. Sendo o ambiente relacional da igreja, perfeito para nos dar este equilíbrio, se nesta comunidade a questão é tratada de forma sadia, sem privilégios ou desvantagens.  

2. Precisamos praticar a empatia:
A "saída do armário" não é fácil, principalmente para quem tem formação religiosa cristã. Em geral, passasse por conflitos internos que podem gerar até transtornos psicológicos. Considerando que até quem é homossexual tem dificuldades para se aceitar, devido a várias questões pessoais, sociais, religiosas, etc; por qual razão, as pessoas não podem ter  o mesmo processo em relação a aceitação da homossexualidade? Porque uma pessoa que acreditou a vida toda que algo é contrário a vontade de Deus precisa que instantaneamente aceitá-la com naturalidade? E este ponto é o que considero o mais critico e controverso.

Entendo que devemos lutar por igualdade de direitos dentro e fora dos círculos religiosos. é maravilhosos ver como a igreja citada acima tratou o tema, e reconhecer a abertura cada dia maior das pessoas pela igualdade de gênero e reconhecimento dos direitos civis. Entretanto, ao falamos de religião, não esta em jogo apenas (como alguns afirmam) a questão moral ou simplesmente teológica. Estamos falando de consciência, visão de mundo, e de uma esperança que direciona toda a vida de uma pessoa, das mais complexas às mais simples decisões. E temos que tomar cuidado em relação a isso.

Jesus nos alertou a "não fazermos aos outros o que não queremos que nos façam" (Mateus 7:12) não queremos aceitar ninguém por imposição como que enfiado goela abaixo, então, não nos façamos aceitar por imposição, além da aceitação, busquemos por respeito, que é o sentimento mais próximo ao amor.

3. Precisamos fortalecer o comportamento cristão
No mesmo capitulo de Mateus, Jesus diz que a "árvore é conhecida por seus frutos" e se nosso desejo é realmente participar ativamente de uma comunidade cristã, faz-se necessário sermos conhecidos por andarmos com integridade. E neste quesito vale outro conselho de Jesus: "Negue-se a si mesmo e depois siga-me", isto é, a estrada será longa e árdua, ande em amor.

O apostolo Paulo é um exemplo de pessoa rejeitada pela igreja e que lutou para ser aceito, em suas cartas há diversas recomendações para alcançarmos o reconhecimento do nosso chamado e nenhuma delas foi por força, mas, por reconhecimento de nele estar o Espirito de Deus. 

Eis alguns conselhos:

- Ninguém busque o proveito próprio, mas cada um o que é de outrem (1 Coríntios 10:24 e 39):
Saiba retroceder na busca por sua aceitação quando isto colocar em risco a vida de outras pessoas. Às vezes um passo atrás procede dois à frente. Não podemos ser pedra de tropeço para fazer se perder quem quer que seja, como já citado, precisamos ter empatia e assim como Paulo, se fazer fraco para com o fraco, a fim de ganha-lo.

- Seja praticante de boas obras (1 Pedro 2:12):
Uma das mais nocivas formas de preconceito é aquela que nasce do estereótipo. As pessoas não permitem conhecer o outro, mas o julgam pelas imagens que foram construídas em sua mente sobre determinado assunto. Existe uma caricatura formada a respeito dos gays. Sendo assim, todo gay é afetado, afeminado, escandaloso, se comporta de forma imoral e espalhafatosa, dá em cima de qualquer homem que estiver por perto, etc. Mentira!! Mas trata-se do estereótipo mantido até hoje por grande parte da mídia e reforçado em círculos fundamentalistas para justificar a não aceitação de homossexuais na igreja.

Pedro aconselha que os cristão de sua época andem de maneira honesta, para que naquilo que era dito deles como que de malfeitores, os gentios pudessem glorificar a Deus vendo o seu bom procedimento e boas obras.

Então, manifestem a imagem de Cristo em amor: sejam afetuosos, demostrem amor verdadeiro, não fingido ou apenas de palavras, sejam cordiais, respeitosos, moderados, evitam a aparência do mau.

- Ande de acordo com o que já alcançou (Filipenses 3:16):
Um dos principio declarados em Atos para a eleição ministerial, era o testemunho da comunidade, e  se os membros da sua comunidade já o aceitaram e respeitam, fique feliz por isso. Mas não pare!!

Muitos de nós tenham ministérios relacionados ao ensino ou a música, o que nos coloca em evidência em relação as demais, por isso, é necessário ter cautela. Não digo que tenhamos que "enterrar nossos talentos", mas avaliar o momento oportuno para não prejudicarmos o andamento da comunidade.

Neste quesito, proponho a sugestão de Paulo aos Coríntios em relação aos dons, procure o caminho mais excelente: o amor. É pelo amor que as igrejas estão abrindo suas portas e revendo a aceitação ou não de homossexuais, é por reconhecer que a graça de Jesus é para todos sem distinção.

4. Precisamos reconhecer que...

- Não poderemos mudar a Bíblia: A advertência em relação a homossexualidade está e continuará na Bíblia, faz parte de um documento e tem uma razão - histórica e cultural. E é isto que as igrejas estão buscando compreender com maior clareza. Lembrando que há outras séries de advertências e que fazem parte do nosso dia a dia e que não damos tanto peso quanto a esta em especial.

A questão então é, o quanto uma pregação utilizando-se de versos que suportam a condenação de homossexuais me incomoda em relação a todas as outras e principalmente às que afetam o outro?

- O outro também é amado: É muito fácil sairmos de um extremo e irmos ao outro, achando-se tão necessários, fazemos o outro desnecessários. Paulo nos adverte que todos os membros do corpo são necessários, mesmo aqueles que são considerados mais fracos, menos honrosos ou menos decorosos. E afirma ainda que em Cristo todas as paredes de separação sejam de gênero, raça, condição socioeconômica e religiosas, não tem valor algum, todos estão em Cristo e são membros de seu corpo. (1 Coríntios e Gálatas).

Neste processo, tenho visto muitas pessoas sendo descartadas tanto de um lado como do outro, como se a multiforme graça e o amor de Deus não fossem suficientes para nos unir em um único propósito que é fazer o reino de Deus e seu amor conhecidos.

Estejamos atento para não descartarmos o outro apenas por discordar de nós.

- Podemos não viver a promessa: Há no livro de Hebreus (cap.11) um relato surpreendente sobre os heróis da fé, após contar sacrifícios, privações e milagres experimentados por homens como nós, é feita uma afirmação contundente: "e todos estes, tendo tido testemunho pela fé, não alcançaram a promessa" (vs. 39).

Assim como o rapaz da igreja Batista, aguardou (ou não) por 10 anos, podemos não viver esta transformação, mas o trabalho nunca é vão, preparamos a terra, plantamos e regamos, para que outros possam colher. E esperar com bom testemunho, isto é, com testemunho de fé, faz toda a diferença. Lembre-se que esta mudança não envolve apenas uma compreensão diferente de uma tema bíblico, se fosse assim seria fácil, mas requer uma mudança de mente, coração e comportamento de toda uma geração.
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Voltando ao texto do evangelho de João que abre esta reflexão.
Antes de falar sobre perdão, o texto trás um retrato histórico do judaísmo que era a exclusão de pessoas da congregação ou templo pelos mais diversos motivos: deficiências físicas, nacionalidade, questões rituais, de gênero, e tantas outras consideradas indignas pela Lei de Moises.

Entretanto, muitas delas, foram quebradas no decorrer da historia de Israel, pelo próprio Deus, tendo em vista o favor a vida e considerando a fé disposta no coração das pessoas. Exemplos são: O próprio Moisés, autor da Lei, casado mulher gentia (Deut. 7:13); Raabe a prostituta (Deut. 23:17); Rute, moabita que veio a ser avó do rei Davi, então descendente de moabita (Deut. 23:3) e posteriormente na igreja, o centurião italiano, Cornélio e demais gentios. 

Havia porém, em Israel, pessoas que não se opunham diretamente a questão, como as que estavam no templo e cercaram Jesus para ouvi-lo, como haviam também, as que se opunham com veemência, tendo como argumento a Lei, como as que chegaram com o rapaz gay pedindo que Jesus desse seu veredito.

Jesus sabiamente, recorre a uma certeza universal, todos são pecadores, e então, merecedores do mesmo castigo (Romanos 3:23), mas disse Jesus "eu não te condeno", não atribuirei castigo a ninguém (Romanos 3:24-26).

Jesus, ali, faz uma chamada amorosa a todos  (Gálatas 3:22-29), para que reconheçam sua condição e recebam pela fé sua graça salvadora. Porém, como vimos, um a um foram se retirando, como que rejeitando a bondade e misericórdia de Deus até que apenas quem teve a coragem de se reconhecer humano e necessitado de Cristo permaneceu.

E será assim, pois já foi assim, ouçamos todos o que o espirito de Deus falou a Pedro: "Não faças tu, comum ou imundo, ao que Deus purificou" (Atos 10).

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POSFÁCIO

"Mas de agora em diante não volte a pecar"

O apóstolo Tiago, declara em um texto maravilhoso que "aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado" (Tiago 4:17); Ele nos adverte ao longo do texto que todo o motivo de contenda, guerras e desavenças, deve-se àquilo que está dentro de nós: desejos, cobiça, inveja, maledicência, julgamentos e presunções. Com ele, confirma Paulo, quando diz que "o bem que quero fazer, não faço, mas o mal que não quero, este faço". Entretanto, Jesus é o nosso modelo de bondade (Atos 10:38).

A advertência de Jesus, diz mais sobre o fato de que,  a partir da graça, deve-se viver uma vida integra, honesta e digna, evitando assim, que seus acusadores tenham motivos para novamente o atacar e, quem sabe  matar, que  da obrigatoriedade de se viver uma vida sem pecados. Pois, assim com fizeram a Jesus, movidos pelo ódio, inveja e ganancia o mataram, poderiam fazer também a ele

- "Seus algozes estarão a espreita, tenha cautela no caminho".

A recomendação fala sobre aqueles que não conseguem reconhecer o amor de Deus e por isso nunca se darão vencidos pela graça - "o amor encobre a multidão de pecados" (1 Pedro 4:8) -  diz sobre aqueles que não conseguem reconhecer seus próprios pecados -  "Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós." (1 João 1:8) - fala sobre aqueles que odeiam os irmãos - "mas aquele que odeia a seu irmão esta em trevas, e anda em trevas, e não sabe para onde deve ir, porque as trevas lhe cegaram os olhos". (1 João 2:11) - é uma advertência contra os que não conhecem a Deus - "quem não ama, não conhece a Deus; porque Deus é amor" (1 João 4:8).

E aos que continuarão crendo que homossexualidade é pecado, peço que continuem orando, também creio que Deus é poderoso para agir mudando o nosso coração, ou mudando o seu.

"Por esta causa dobro os meus joelhos ao Pai, de quem toma o nome toda a família nos céus e sobre a terra, para que ele vos conceda, conforme as riquezas da sua glória, que sejais robustecidos com poder pelo seu Espírito no homem interior; que habite Cristo pela fé em vossos corações, sendo vós arraigados e fundados em amor, a fim de poderdes compreender com todos os santos qual é a largura e o comprimento e a altura e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo, que sobrepuja a ciência, para que sejais cheios até a inteira plenitude de Deus. Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, segundo o poder que opera em nós. Efésios 3:14-20

E a quem destinei esta reflexão, homossexuais cristãos:

"Sabendo que, se o nosso coração nos condena,
maior é Deus do que o nosso coração, e conhece todas as coisas.
Amados, se o nosso coração não nos condena, temos confiança para com Deus" - 1 João 3:20,21

quinta-feira, 3 de março de 2016

1086 por 60

Começo bem o ano, os 2 primeiro meses foram de intensa leitura.
Foram 1086 páginas em 60 dias, o que corresponde a 18,1 paginas por dia. Bastante não?!
E as leituras foram mais que apaixonantes...

Einstein - sua vida, seu universo
Biografia de um dos físicos mais influentes da história.
A criança com problemas de fala, o adolescente visionário, o jovem sonhador, o adulto obstinado, o velho conservador. Fases da vida do homem considerado a personalidade do século XX.

São 561 páginas das quais ninguém se arrependerá de ler. Uma historia de vida com muitas lições e desmistificações do que se diz a cerca do mito.




Paraiso Perdido - Viagens ao Mundo Socialista
Uma espécie de diário sobre suas viagens à países socialistas , nos dá uma visão muito diferente do que nos mostra a TV principalmente no que diz respeito a revolução cubana e o seu líder Fidel Castro e ainda sobre a cortina de ferro e a queda do muro de Berlim.
O livro trás conversas e analises históricas muito interessantes sobre a América Latina e sua busca por liberdade econômica em relação ao imperialismo Americano e Europeu. Além de ser uma espécie de lado B da historia recente do Brasil e da América.

E vamos embora que a lista este ano esta repleta de coisas boas!!
Boas leituras...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

MATURIDADE - O TEMPO

E ele lhes disse: Por que me procuravam? 
Não sabem que devo tratar dos negócios do meu Pai? (...)
E desceu com eles, e foi para Nazaré, e era-lhes sujeito.(...)
E crescia Jesus em sabedoria, e em estatura, 
e em graça para com Deus e os homens.
Lucas 2:49-52



A maturidade, como já falamos, é o efeito de quem atingiu o pleno desenvolvimento de suas faculdades biológicas, comportamentais e espirituais. Assim, a faculdade comportamental é desenvolvida por meio das experiencias do nosso dia-dia, de como enxergamos o mundo, respondemos as contingencias da vida e nos reconhecendo no mundo como parte atuante.

Das analogias bíblicas sobre o processo de amadurecimento, citamos três: Criação, Cristo e Igreja, e através delas vemos o esforço de Deus para imputar nos seres humanos a responsabilidade por suas ações e a capacidade para lidar com as contingencias da vida sem se desumanizar.

O texto do Evangelho de Lucas, capitulo dois, nos dá uma amostra do quão precoce Jesus percebeu a sua missão e propósito, a ponto de não ter se importado com o que sofreriam Maria e José com o seu desaparecimento por dois dias para "cuidar dos negócios de seu Pai" e mito menos sem avaliar as consequência de se revelar antes da hora aos mestres da Lei. Imaturidade infanto-juvenil, claro que sim, e que poderia ter colocado tudo a perder.

O processo de amadurecimento passa pelo ato de reconhecer que "há tempo para tudo debaixo do sol" e que a "adultização precoce" também é nociva ao nosso desenvolvimento. Pular etapas do desenvolvimento humano, como vimos na historia da criação, pode comprometer um desenvolvimento comportamental e espiritual saudável. Será por isso que Deus se fez menino?

A serpente, ao enganar Eva, disse-lhe que ser conhecedora do bem e do mal, lhe faria igual a Deus. Entretanto, essa não era a verdade, pois Deus embora seja conhecedor do bem e do mal, é todo amor, não tendo outra escolha (livre arbítrio) a seguir, a não ser AMAR. Nas palavras do apóstolo Tiago, Deus não pode ser tentado pelo mal (Tiago 1:13). 

Em termos psicológicos, o que aconteceu com Adão e Eva, e o que estava prestes a acontecer com Jesus, foi o desenvolvimento intelectual precoce, proposto por uma exposição excessiva a convivência com adultos (no caso de Adão e Eva, comer o fruto do conhecimento, e de Jesus, a consciência de sua missão), em detrimento a um desenvolvimento emocional necessário, pois possibilitam o preparo  para lidar com as contingencia da vida.

Podemos citar três riscos iminentes que sofreria Jesus caso não entendesse a bronca dos pais e se recusasse a voltar para casa. São:

1. Risco de morte:
A escritura relata que havia uma ordem expressa de Herodes para assassinar todos os meninos nascidos em Belém, o que fez com que José levasse sua família para o Egito ate a morte do rei - Mateus 2:16-18. Não há certeza, mas  podemos supor que Jesus fosse o único sobrevivente dos meninos nascidos naquela época, e caso em sua permanência no templo, fosse inquirida a informação de seu nascimento, poderia correr risco de morte.

Pular uma etapa de vida, é como estar morto para aquele ciclo, todo o desenvolvimento necessário ficam comprometidas, afetando o futuro da pessoa, pois sem o amadurecimento, ela se torna um adulto incompleto e inapto para alguns aspectos da vida.

Também precisamos entender que a precipitação infantil, isto é, a falta de entendimento e a ânsia por fazer a vontade de Deus, pode colocar em risco nossa vida espiritual, principalmente quando ainda somos novos na fé. Muitas pessoas são machucadas por desejarem pular etapas de seu desenvolvimento espiritual e se decepcionam com facilidade ao entrar no âmbito eclesial onde acham que todos são espirituais, o que não se trata de uma verdade.

2. Risco da fé:
Embora Jesus demonstre nesta referencia consciência de sua missão, ele ainda não estava pronto. Seus conhecimentos da escritura eram surpreendentes para uma criança de sua idade, mas ainda não eram suficientes para se opor aos doutores da lei.

Devido sua ingenuidade, Jesus poderia ser facilmente induzido a erro, visto a astucia dos religiosos de sua época e sua permanência no meio dos doutores da lei, escribas e fariseus poderia colocar abaixo toda a sua simples sabedoria que falava ao coração do povo:

"Quando Jesus acabou de proferir estas palavras, estavam as multidões maravilhadas da sua doutrina, porque ele as ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas". - Mateus 7:28-29.

3. Risco Ministerial:
Outro risco que sofreria Jesus era o de não conseguir levar a diante seu ministério.
As profecias a cerca dele em Isaías eram claras, O justo haveria de morrer. Entretanto, esta não era a vontade dos religiosos. A esperança inculcada em Israel era de um Rei e general militar que livraria Israel do domínio Romano. Durante todo o ministério de Jesus, este também foi o anseio dos discípulos, que mesmo após sua ressurreição o indagaram a respeito (Atos 1:6).

Caso os religiosos não matassem Jesus, poderiam incita-lo a que esta era a vontade de Deus para ele, usando inclusive as escrituras.

"Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque fechais o reino dos céus diante dos homens; pois vós não entrais, nem deixais entrar os que estão entrando (...) ai de vós, porque rodeais o mar e a terra para fazer um novo convertido; e, uma vez feito, o tornais filho do inferno duas vezes mais do que vós!" - Mateus 23:13 e 15


Concluindo, Jesus precisava ainda do tempo ao lado dos pais, sendo criança, como diz o texto em "sujeição e obediência" para que pudesse então crescer em sabedoria (desenvolvimento emocional e psíquico para lidar com as contingencias da vida), estatura (crescimento físico) e graça (crescimento espiritual) antes de se aventurar no reino dos religiosos. Jesus precisava cumprir todas as etapas antes de iniciar seu ministério, precisava ser inteiro, estar amadurecido para se tornar um verdadeiro sumo sacerdote.

"Por isso mesmo, convinha que que, em todas as coisas se tornasse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas referentes a Deus e para fazer a propiciação pelos pecados do povo. Pois naquilo que ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, é poderoso para socorrer os que são tentados. Por isso, santos irmãos (...) considerais atentamente o Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa confissão, Jesus" - Hebreus 2: 17-18 e 3:1


domingo, 20 de dezembro de 2015

O TRIO DO FINAL DE ANO

As ultimas leituras de 2015 foram densas, foram os livros com poucas páginas que mais demorei a ler. Fica até difícil até escrever a respeito de cada um dos livros.



Homossexualidade - Perspectivas Cristãs
Um copilado de artigos sobre a igreja e a homossexualidade.
O mais incrível do livro, assuntos abordados na década de 1970 que estão sendo debatidos agora no Brasil, e sem a lucidez tratada no passado. Alguns segmentos da igreja são mesmo retrógrados, principalmente aqui.
Fonte Editorial - 184 páginas







Protestantismo Tupiniquim
Gedeon Alencar faz uma analise sobre as marcas do protestantismo e sua influencia na cultura brasileira. Do contexto histórico ao modismo do "gospel" ele desenrola com simplicidade e graça as hipóteses sobre a não contribuição do protestantismo em nossa cultura.
Arte editorial - 160 páginas






Beatitudes - As bem-aventuranças
A transcrição de 5 mensagens sobre o sermão do monte, realizadas por João Calvino entre 1561 e 1564. Questões teológicas a parte, foi incrível perceber como as pregações foram usadas para manipular opiniões e moldar o senso comum protestante. Recomendo a leitura não por considerar uma pregação inspiradora, mas para que percebam que quase nada mudou. #triste
Fonte Editorial - 120 páginas





Que venha 2016 e mais leituras.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

A VIDA É UM RISCO

A vida é um risco
Risco de a qualquer momento morrer
Risco de adoecer
Risco de com todos os riscos viver

Risco de se casar
Risco de não casar
De casar com a pessoa certa
De casar com a pessoa errada
De viver feliz pra sempre
Risco de se separar

Risco de trabalhe com o que gosta
De trabalhar com o que odeia
De ganhar muito dinheiro
De ganhar só o sustento
Risco de não trabalhar

Risco de conquistar um diploma
De bombar, pegar exame
De trocar os cursos
De decidir já na velhice
Risco de não estudar

A vida é um risco
Risco de crescer,
de amadurecer, de viver adolescente
Risco de mesmo adulto ser inconsequente.
Risco de ver a vida passar
De não aproveitar nada
De se lamentar
Risco aproveitar exageradamente
Sexo, drogas, baladas, vida louca
Risco da vida estragar

Risco viver intensamente
Loucuras e prazeres
Santidade e deveres
Risco de ser livre

A vida é um risco
Do medo de errar
Do prazer de arriscar
Da coragem de não desistir
Da ousadia ao persistir

Viver é arriscar
Arriscar ser feliz
Arriscar sorrir
Arriscar sofrer
Arriscar doer

Arriscar ...Ar riscar... A riscar
E escrever uma historia bonita.
Que é viver.

domingo, 6 de dezembro de 2015

MATURIDADE - O SALTO-ALTO QUE DEUS NÃO TINHA

Um tema pouco falado hoje na igreja e que volta e meia me persegue é a maturidade, o efeito daqueles que atingiram o completo desenvolvimento de suas faculdades biológicas, comportamentais(psicológica) e espirituais. No que se refere a maturidade biológica, suas características são notadas: menstruação, crescimento da mama para as meninas, alteração da voz, crescimento dos pelos para os meninos, são alguns exemplos. Entretanto, é perceptível também que este processo não é igual em todos os seres, podemos ter desenvolvimento precoces e ou atrasado. A idade cronológica não é necessariamente a mesma da idade biológica.

A maturidade comportamental, surge das experiências do nosso dia-dia, através da forma com que enxergamos e respondemos as contingencias da vida. É o desafio de viver e se reconhecer no mundo como parte atuante e não apenas como parte existente e inerte. Já a maturidade espiritual, longe de ser experiências sobrenaturais e sobre-humanas, é manifestar no chão da vida, tudo o que se aprender, acredita e experimenta de Deus e com Deus. 

Vejo nas escrituras uma série de processos de amadurecimento comportamental e espiritual. Deus comunga deste processo conosco desde o Éden, como um pai-psicólogo, investindo no ser-humano para que este tenha responsabilidade por suas ações e capacidade para lidar com as contingências do mundo sem se perder ou melhor sem se desumanizar. Analogias não faltam, mas vou me prender apenas em três: Criação, Cristo, e Igreja.

1. Criação:

"Então, o Eterno plantou um jardim no Éden, e ali pôs o homem (...) o Eterno levou o homem para o jardim, para que cultivasse o solo e mantivesse tudo em ordem" - Gênesis 2:6 e 15.

Os processos de desenvolvimento comportamental de uma criança passa pela imitação dos adultos ao seu redor. Ela é como uma esponja que absorve e reproduz tudo: atitudes, expressões, vocabulário e até sentimentos sem o menor juízo de valores. Criança vê, criança faz. É a educação pelo exemplo. Muitas vezes me pego pesando, onde é que Deus estava com a cabeça quando colocou duas crianças para cuidar de um jardim. Adão e Eva tinham acabado de nascer, embora seus corpos demonstrassem a plenitude da maturidade, não se podia esperar muito de seu comportamento. Porém, o plano pedagógico de Deus eram modernos para a época, e Nietzsche concorda com Ele:

"O homem chega à sua maturidade 
quando encara a vida com a mesma seriedade 
que uma criança encara uma brincadeira." 

Sabiamente, Deus pede ao homem que dê nome a todos os animais. Algo que para um adulto (maduro) levaria três eternidades e meia apenas para chegar a algum consenso. Passaríamos horas a elogiar ou criticar cada um dos animais: "A zebra é branca com listas pretas ou é preta com listas brancas?"; Algo que para uma criança não tem sequer importância. A inocência em seu olhar a permite ver apenas a beleza pelo encantamento da "primeira vez".

"O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo..."
Alberto Caeiro

O jardim do Edén era o quintal onde Adão e Eva em sua infância mental, tinham tudo o que qualquer criança gostaria de ter. Criança gosta mesmo é de brincar: cheirar as flores e sentir a textura de suas pétalas brincado de bem-me-quer, ver as folhas voando com o vento, nadar nas águas gélidas do rio, correr sem direção, jogar-se na grama e ver formas inesperadas nas nuvens, subir em árvores, além de "conversar com os animais" quando não com amigos imaginários.

Pode parecer brincadeira de criança, mas o que a serpente fez com Eva foi justamente brincar de "se vestir como a mamãe" colocando não somente os vestidos, sapatos e acessórios, mas criando a necessidade de "ser como", e nisto, bem pode nos ajudar a famosa frase "Freud explica". Será Freud uma reencarnação da serpente?

O que Deus tinha que despertou tamanho desejo em Eva?
Deus não tinha saltos-altos, batons, vestidos ou maquiagens, tudo o que Eva poderia desejar hoje. Todavia, Deus tinha maturidade, era adulto, tinha "percepção da realidade (experiências de vida) e conhecimento para realizar juízo de valores (bem e mal)" - Gênesis 3:4 e 5.

E a morte?
Para nós serem humanos a morte começa quando chega a maturidade, Deus não mentiu.

A teologia estabeleceu que o pecado de Adão e Eva foi se rebelar conta Deus, fazendo sua própria vontade ao comer do fruto que era proibido. Minha questão não é esta.

As entrelinhas mostram que, o que ambos fizeram foi apenas desejar crescer, ser adulto, adquirir a maturidade do Pai, pois estavam extasiados com o que ele É, pelo encantamento da primeira vez. Porém quiseram fazer isto da forma mais fácil, sem adquirir responsabilidade que vem da experiencia do viver. Usaram o poder de escolha (livre arbítrio) para crescer antes da hora, Desconhecendo as reais consequências decidiram não aproveitar a vida e morrer antes do tempo. E ao perceberem o que tinham feito, mostraram claramente sua infantilidade:

  • Não pediram ajuda, antes fizeram roupas de folhas para si.
  • Tiveram medo e se esconderam, ao invés de encarar o comportamento incorreto.
  • Se acusaram mutuamente e acusaram a Deus, quando deveriam demostrar arrependimento.
Deus percebe que Adão e Eva ainda eram crianças e sua atitude é condizente com o que nossos pais fazem hoje: 
  • Os faz ter consciência do erro que cometeram.
  • Mostrou-lhes a real consequência de suas atitudes..
  • Acolhe e proteger, dando roupas de verdade.
A atitude de Adão e Eva e tipica de crianças e adolescentes, o desejo de ser adulto, da liberdade de ir e vir, de fazer o que quiser sem dar satisfação, não passa de uma ilusão infantil. E quando se deparam com a realidade, se frustram e passam a sua maioridade inteira desejando voltar atrás e ter a vida que tinham quando crianças, dependentes dos cuidados e manutenção dos pais, sem responsabilidades ou preocupações. Pessoas assim nunca se tornam plenamente adultos.

Fato é que em momento algum Deus se mostra este Pai irresponsável que dá tudo aos filhos esquecendo-se que isso um dia se voltará contra ele. Deus se ausenta, deixa que homem e mulher cumpram com suas responsabilidades - cultivar o solo e manter o jardim em ordem - e só retorna na viração do dia. Faz isso, pois quer que ambos construam sua maturidade na experiencia do viver, não através de leis, estatutos, proibições e ditames de certo ou errado. Nisto Freud tinha razão "A religião é comparável a uma neurose da infância" isto é, a incapacidade de lidar ou resolver conflitos internos ou externos de forma satisfatória, o que Paulo também condena:

"Assim, se com Cristo vocês deixaram para trás aquela religião pretensiosa e infantil,
por que agora se permitem intimidar por ela?
Não toqueis nisto! Não provem aquilo! Não cheguem perto daquilo!
(...) Ditas em voz alta, estas ordens podem impressionar. 
Chegam a parecer religiosas, evocando humildade e sacrifício.
Mas não passam de outra forma de autoprojeção de parecer importante."
Colossenses 2:20-23 


O risco que Deus correu ao corrigi-los, é o mesmo que os pais correm hoje em dia. A mesma brinca pode ter efeitos divergentes de acordo com a visão de mundo da criança: 1. Meus pais me amam e querem o melhor para mim, estão me ensinando a crescer. 2. Meus pais não me amam, por isso me podam e não me deixar fazer o que eu quero. Podemos ver esta visão em Caim, quando Deus o chama por causa de Abel. E a religião nasce deste sentimento, Deus não nos ama e esta pronto para nos punir, por isso, devemos fazer tudo para não deixá-lo mais zangado que já é.

Quem dera Eva não tivesse desejado apenas vestir os saltos-altos de Deus.

Pense nisso.

domingo, 29 de novembro de 2015

ESCOLHA


Quem escolhe a própria sexualidade?
Embora haja uma quantidade grande de pessoas que acreditam que o desejo sexual de alguém seja uma escolha, uma opção, eu acredito que não. Verdade é que, nunca ouvi um heterossexual dizendo: escolhi ser hétero. Por que um gay deveria?

Há quem acredite que em tempos imemoriais eu tenha feito esta escolha, consciência dela, não tenho. Embora tenha sentido seus impactos mais fortes durante aproximadamente 30 anos da minha vida. Estas mesmas pessoas acreditam que eu deva fazer outra escolha.

O dia amanheceu belo, era outono, 27 de maio de 1980, uma família cristã que já contava com duas meninas recebia naquele dia, um lindo menino de olhos verdes brilhantes. O principezinho Davi chegava para alegrar a família. Não é possível descrever a alegria que sentiram pelo seu nascimento, mas eles não sabiam que aquela criança havia sido predestinada ao sofrimento.

A medida que ia crescendo, algumas coisas foram ficando aparentes para ele. Mas para quem?

Seu desgosto com o futebol, não por falta de tentativa, mas por sua inabilidade com a bola, antes acertava a canela dos colegas. Era o ultimo a ser escolhido pelos times, isso quando não era excluído da brincadeira. Isolado, sua única opção era se unir as meninas em suas brincadeiras. Não era chegado a brincadeiras de luta, como seu irmão mais novo, não gostava de brigar na rua e geralmente voltava para casa chorando. Poucas vezes se atreveu a revidar alguma agressão. Quando chegou a fase escolar tinha problema com os meninos da turma, bom aluno e quieto, já estava acostumado à companhia das meninas e isso era motivo de chacota, menininha, marcas, CDF entre outros adjetivos. Adorava dançar e quis fazer ginástica olímpica, sabia de cor as coreografias das músicas dos grupos infantis da época e isso agravava as ofensas que recebia. Devido às várias agressões verbais que sofria, se tornou seletivo nas amizades. Com poucos amigos, se tornou mais caseiro e amantes dos estudos e livros. Na adolescência percebeu que chamava a atenção mais dos homens que das mulheres, uns para ofende-lo e outros com insinuações do tipo "é disso que ele gosta" seguido de uma balançada no "documento". Tinha medo, fugia e chorava, embora a cada dia tomasse a consciência do que poderia ser, a única coisa que o deixava com mais medo era crescer e ficar parecido com Clodovil Hernandez, Seu Peru ou a aterrorizante Vera Verão.

Aos 13 anos decidiu se batizar na igreja, a promessa cristã de "receber uma nova vida" o fez acreditar que como mágica tudo mudaria. Fiel e dedicado, se doou de coração a jejuns, orações e leituras da bíblia, em pouco tempo era bem visto por sua sabedoria e conhecimento das escrituras. O que ele não entendia é o porque as coisas não mudavam. As insinuações agora aconteciam no ônibus, metro ou mesmo no trabalho. Assédios sexuais foram poucos, porém assustadores, duas vezes no trabalho, duas vezes no metro onde inclusive chegaram a passar-lhe a mão, além de um convite para sair com um homem mais velho "porque eu sei que é disso que você gosta e ninguém precisa saber". Tudo isso intensificou a sua fé e busca de Deus, pois o Senhor. E sua juventude foi marcada pelo medo e choro, entre jejuns e orações para que Deus o livrasse de ser uma abominação e condenado ao inferno. Ele não queria ser gay e a religião era seu escudo e sua vida. Evitava sair com os amigos para entretenimentos "mundanos" e intensificou suas atividades na igreja como forma de "pagar" o amor de Deus, mas nem mesmo na igreja conseguiu se livrar dos ataques que sofria, havia desconfiança de alguns e de onde deveria receber amor incondicional e ajuda, recebeu também acoites ao ponto de ser proibido de ter amizades  com alguns sob a acusação poder pervertê-los. Neste interim, teve 3 relacionamentos com meninas que não deram certo. Se dizia apaixonado, mas eram sempre amores platônicos e impossíveis. Se tornou pastor e continuava orando, esperando o milagre de sua transformação. Em tudo isso sofria sozinho e calado.

Quem pode avaliar a tristeza, a dor, o medo e a pressão psicológica pela cobrança de si mesmo, dos outros em relação a sua sexualidade, pois "todos da sua idade já namoram e você nada", além do ataque daqueles que desconfiavam e estavam apenas aguardando a confirmação para colocar toda a sua malignidade e preconceito para fora.

Atribui-se a Sigmund Freud a frase "Como fica forte uma pessoa quando esta segura de ser amada", e o que menos se sente nesta posição é que se é amado. Sentir-se deslocado em relação a si mesmo, aos outros e ao mundo se torna natural. Estar em outra realidade e tentar sobreviver não é uma escolha mas a única opção, mas com consequências pesadas pela autoacusação de estar vivendo uma mentira.

Apaixonei a primeira vez, por um homem, a certeza de sua homossexualidade aos 28 anos, o desejo de viver e experienciar tudo o que rejeitou durante toda a vida se misturam a ansiedade e ao medo. O fortalecimento pelo fogo da paixão, a coragem, a ousadia, o reconhecimento de quem se é de verdade. A coragem para se declarar e o desespero pela primeira desilusão amorosa, motivo de depressão, de pensamentos suicidas, da perda da voz e do afastamento da igreja por não querer mais mentir dizendo "estar esperando em Deus a futura namorada". .

Estava sendo forçado a fazer um nova escolha.
Um processo de redescoberta que incluía o "sair do armário".
Mais sofrimento, mas um sofrimento libertador

Escolhi me amar como sou, me aceitei e aprendi a me  re-conhecer.
Escolhi "abandonar as roupas e usadas, que já tem a forma do nosso corpo, esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos"  (*)
Escolhi não me deixar levar por pensamentos de suicídio e nem pela depressão.
Escolhi ter segurança no que quero e em como construiria meu novo eu.
Escolhi ficar ao lado de pessoas que me admiram pelo que sou e não pelo status que podia oferecer, pois me tornei uma pessoa não grata em alguns círculos.
Escolhi não me reduzir a rótulos e opiniões de quem não sabe minha historia.
Escolhi não me intimidar com os discursos de ódio e pela falta de amor dos que se decepcionam com a verdade.
Escolhi pelo amor incondicional de Deus e pelo amor de quem me ama e respeita de verdade.
Escolhi mesmo que contra todas as circunstancias negativas (social), ser feliz.
Escolhi usar o que foi motivo de prisão para minha própria libertação:
Dançar quando tiver vontade, rir até a barriga doer, lutar pela vida e pela paz com todos.
Estudar, devorar livros, ir ao cinema, sair com os amigos ou, ficar em casa acordados até de manhã.
Escolhi não deixar a religião, ir a igreja, orar e jejuar foram resignificados, não mais por tristeza mas por alegria.
Escolhi comungar da presença de Deus que está nas pessoas comuns, não em "vacas sagradas" hipócritas e desumanas.
Escolhi me apaixonar pelo belo, pelo virtuoso e pelo bom, pelo que vale a pena.
Me sentir amado. 
Ser feliz.

Escolhi viver...mesmo que para você isso se resuma a ser gay.



(*) Texto:
Tempo de Travessia
Autor: Fernando Teixeira de Andrade